domingo, 12 de outubro de 2008

Universe


O Sol é um corpo negro: quem o vê brilhar não deveria ser capaz de aceitar tamanho disparate. E, no entanto, é a mais pura verdade... Como são fortes as palavras!

(imagem: o Sol é um corpo negro...)

Diário de um ninguém


Se alguém me lê, nem percebe que eu não existo: eu sou apenas uma invenção de um outro. E, ainda assim, sou muito verdadeiro.

Eu sou a água que transbordou do copo, falando apenas que o copo não está vazio.

(imagem: ilustração de outro livro que quase ninguém leu)

sábado, 11 de outubro de 2008

Principia


Um dia, me apaixonei por uma princesa. Pela minha falta de beleza, me disse ela, de longe se via que eu não era um príncipe, e me mandou embora.

Outra vez, me apaixonei por uma flor. "Onde estão a sua cor, o seu perfume?", me disse ela, e me mandou embora.

Ainda, me apaixonei por uma nuvem. "Você é pesado demais!", disse ela, e me rejeitou.

Princesa, flor e nuvem, enfim, foram apenas algumas das minhas paixões. Todas passaram.

E mesmo sem elas, não sendo nem príncipe, nem colorido ou perfumado ou leve, eu posso hoje sentar na beira do mar, para ver as ondas, buscar conchinhas e construir castelos na areia, como a criança curiosa e apaixonada que sempre fui.

(imagem: primeira página de um livro escrito por um sujeito que teria dito "Não sei o que posso parecer aos olhos do mundo, mas aos meus pareço apenas ter sido como um menino brincando à beira-mar, divertindo-me com o fato de encontrar de vez em quando um seixo mais liso ou uma concha mais bonita que o normal, enquanto o grande oceano da verdade permanece completamente por descobrir à minha frente.")

A marcha dos pingüins


Um pingüim solitário, ao descobrir-se apaixonado, sente que derrete o gelo aos seus pés.

Rejeitado, ele sente o gelo é no coração. Com uma pedra no peito, se atira ao mar - e alcança as costas tropicais do Brasil... De onde lhe mandam embora, num vôo fretado.

Ah! Pingüim ou não, a marcha é longa, o clima - o mundo - é cruel, e o amor nem sempre ajuda.

Eu, de tanto andar, tenho calos. De tanto amar, tenho medo. E, ainda assim, ando amando.

(imagem: pingüins, em foto de Martin Walls)

Adrienne Mesurat


Eu sou um peixe, num aquário, com fome. Sem palavras como todos os peixes, como posso pedir comida? Quando serei alimentado?

Só me resta olhar pelo vidro e esperar.

(imagem: um livro que quase ninguém leu)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Manifesto do Partido Comunista



Em tempo: não moro em São Paulo, mas em outro lugar, próximo, onde, em 1947, "os comunistas elegeram o prefeito, Armando Mazzo, e uma bancada de 13 vereadores em uma Câmara de 31 cadeiras. No entanto, menos de 24 horas antes da posse do novo prefeito e da Câmara, o TSE enviou um telegrama ao TRE paulista comunicando a sua decisão de anular todos os votos conseguidos pelos comunistas e se negando a dar posse ao prefeito e sua bancada."

Eu não ficaria surpreso com atitudes desse tipo de novo.

(imagem: Papai Noel...)

A capital da solidão



Só vou copiar um trecho de um texto publicado na Folha de São Paulo, em que uma pesquisadora (Argelina Figueiredo, do Cebrap) comenta o resultado do primeiro turno das eleições para prefeito em São Paulo:

""Esse elemento [afastamento de PT e PSDB no plano nacional], junto com o provincianismo conservador da cidade, explica o resultado polarizado da votação." Ela [a pesquisadora] acredita que não exista na cidade um "antimartismo" puro e simples, mas sim uma tradição antitrabalhista enraizada na história. "São Paulo foi antigetulista, agora é antipetista (...)""

São Paulo, provinciana e conservadora? Não posso aceitar tamanho disparate! São Paulo antitrabalhista? Mas não é a capital do trabalho no Brasil? Só lembrando (com ajuda da wikipedia): só depois de 1930 começou de fato a industrialização do Brasil, com Getúlio Vargas, que "operou uma mudança decisiva no plano da política interna, afastando do poder do estado oligarquias tradicionais que representavam os interesses agrários-comerciais." Que oligarquias eram essas? República Café com Leite, quando "revezavam-se no poder representantes do Partido Republicano Paulista, PRP, e do Partido Republicano Mineiro (PRM), que controlavam as eleições e gozavam do apoio da elite agrária de outros estados do Brasil", época em que "instalou-se o poder dos governadores dos estados" e quando "o voto não era secreto o que tornava o voto a cabresto uma pratica comum". Sinceramente, acho que os paulistas têm saudade disso.

(imagens: o estádio do Pacaembu e um outro lugar - concordo que é sacanagem fazer tal comparação, mas eu não pude resistir...)

domingo, 5 de outubro de 2008

La favola de Eros e Psiche


Eu acho que não sei o que é "o amor", e nem sei se posso aprender, mas não me custa ler a respeito: posso não entender nada, mas talvez algo fique na minha cabeça oca. Segundo o Estadão deste domingo (eis-me aqui de novo), saiu agora um livro, "Casadas com o crime", que conta alguns romances:

"Era um sonho. Fui muito feliz. Ele me esperava cheio de amor para dar em todos os domingos de visita."

"Era bom demais. O dia da visita era sagrado."

"Ele me enchia de presentes."

"A gente passava na rua e ouvia 'olha a mulher do fulano'. Você se sentia a malandrona, a poderosa."

Os testemunhos acima são de mulheres de presidiários, alguns da alta cúpula do PCC que, com dinheiro e status, não ficam sozinhos. Mas não precisa ser da cúpula do PCC para ter esse tipo de relação: o maníaco do parque, assassino de sete mulheres, se casou dentro da cadeia. Com Paulo César Farias também não foi diferente:

"Em dezembro de 1995, depois de cumprir dois dos sete anos a que havia sido condenado, foi posto em liberdade condicional. Na cadeia, conhecera Suzana Marcolino, uma moça 24 anos mais nova que ele, dona de um corpo escultural, morena cor de jambo, de lábios carnudos. Certa tarde, ela fora levada até a cela especial no Corpo dos Bombeiros, onde Paulo César Farias cumpria pena, por uma antiga funcionária de uma das muitas empresas de PC.

A partir de então, Suzana passou a levar vida de princesa. Ganhou jóias, roupas caras, carro zero-quilômetro, uma generosa conta bancária e montou uma butique de grife - a Lady Blue - em Maceió. Passou a ser vista com freqüência ao lado do namorado recém-liberto, a bordo de uma luxuosa BMW branca conversível."

Segundo um texto antigo da revista Veja,

"Os psicólogos há décadas estudam o fascínio que os homens maus exercem sobre certas mulheres. Algumas teorias tentam explicar por que isso é tão comum."

Não, não há o que explicar: amor é isso, um sentimento sublime, espiritual, facílimo de se obter quando se tem dinheiro ou fama ou a aura nobre dos príncipes encantados que moram, às vezes, por mero acaso, em celas de presídios...

(imagem: Eros e Psiquê - quer coisa mais romântica?)

domingo, 21 de setembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira


Domingão é dia de almoço na casa dos meus pais. Lá sempre tem o Estadão, que geralmente me diverte muito. Hoje, por exemplo, fiquei sabendo que morre 1,3 motoboy por dia em São Paulo. Ou que 12% dos cremes e condicionadores pós-banho do mundo são vendidos no Brasil. Ou ainda que 98% das mulheres brasileiras usa ou usou recentemente tinturas para o cabelo. Que uma menina de cinco anos, trabalhando como modelo, consegue ganhar até 15 mil reais por mês, e que a mãe de uma dessas misses infantis confessa que a filha não sai de casa sem retocar o gloss. Espantado, eu nem consegui chegar na parte de resenhas literárias, que é o melhor do jornal de domingo...

Durante o almoço, eu fiquei me perguntando: quem precisa tanto de motoboys? Na história de um dos rapazes mortos li que ele largara um emprego fixo por ganhar mais como motoboy. Será que valeu a pena, no final?

Outra pergunta: quem consome tanto creme e tintura? Será que são aquelas mesmas pessoas que não lêem porque o preço dos livros é alto demais? Bem, eu deixei de ser farmacêutico-bioquímico em parte por odiar fabricar e vender cosméticos, que sempre achei em sua imensa maioria, fúteis e desnecessários. Parece que me falta sensibilidade.

E, enfim, o que é gloss?

Comi a sobremesa concluindo que o fútil e desnecessário, no fim, sou eu, com essas perguntas inúteis.

(imagem: um tubo de rímel, que lá fora, em inglês e francês, é conhecido pelo nome - mais apropriado? - de mascara; segundo a wikipedia em português - não achei a definição de gloss lá - esse produto é "utilizado especialmente pelo sexo feminino, tendo como finalidade de valorizar o olhar e também proporcionar um visual sofisticado e requintado".)

Na Sombra da Lua

Me lembrei há pouco da sensação que tive quando, ainda criança, assisti um filme de Chaplin, "Luzes da Cidade", em que o personagem Carlitos arruma dinheiro para a operação de uma moça cega. Depois da operação, já com a visão recuperada, ela não reconhece Carlitos, que fica sozinho. Bem, a sensação foi de uma tristeza imensa, misturada com algo mais que não era tristeza mesmo, era deslumbramento ou algo parecido...

E o que me fez lembrar dessa sensação foi um filme que acabei de ver (há menos de dez minutos): "Na Sombra da Lua", um documentário, que até onde consegui investigar não parece ter passado em circuito comercial no Brasil.

Fantástico é o mínimo que eu posso dizer sobre isso, o filme e sua invisibilidade no Brasil. Há dezenas de discussões na internet sobre o quão bom foi Batman, textos nos jornais sobre se "Linha de Passe" é representativo e sei lá mais o quê, e um filme como esse "Na Sombra da Lua", que devia ser obrigatório ao menos nas escolas, passa quase em silêncio, sem ser notado. Triste país de cegos e pobres.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Moby

In this world...



"So many time's I'm down
Down down

With the ground"

Black Crowes

O mesmo tema da postagem anterior: sci-fi e música.



"A charmed life it is
At least they tell yo so
I got a good idea
It aint like they say is so
And if it is then let me go
Let me go."

Coldplay

Continuando com a sessão musical...



"Are you lost or incomplete?
Do you feel like a puzzle?
You can't find your missing piece
Tell me how do you feel?
Well I feel like they're talking in a language I don't speak
And they're talking it to me"

sábado, 13 de setembro de 2008

Moody Blues

"Beauty I'd always missed
With these eyes before,
Just what the truth is
I can't say anymore."



"Some try to tell me
Thoughts they cannot defend,
Just what you want to be
You will be in the end."

E eu espero que isso diga mais sobre quem eu sou do que eu sei dizer...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Plantas e flores


Eu sei escrever, obviamente. Mas eu sei também ler e falar inglês - e um pouquinho de espanhol e francês. Ainda: sei fazer cálculos complicados, e sei um bocadinho de biologia. Eu já li muita literatura, boa e ruim, e já vi um sem-fim de filmes e seriados da TV. Eu tenho diplomas. E um emprego. E uma casa. E um blog.

Mas nada disso é nada: eu queria um poema, que eu sei qual é, ou como seria, mas que não consigo escrever. É isso mesmo: apesar do que eu sei, eu não sei escrever um poema. Não qualquer um, mas o 'meu' poema, que fale o que eu sinto agora - e sempre.

Eu não presto. Pelo menos não para a poesia. E, no entanto, eu sinto!... Está aqui, não ao meu redor, mas em mim, toda a poesia do mundo, a sorrir dentro dos meus olhos, caçoando de mim como só uma criança alegre pode, como uma planta comum, cujas flores aparentemente ordinárias são tão complexas - e lindas - quanto a mais formosa das rosas.

(imagem: um poema modelo, simples, de umas poucas letras...)