domingo, 8 de março de 2009

Os moedeiros falsos


Como professor, sou procurado por muitos alunos que buscam saber minha opinião sobre isso ou aquilo. Por exemplo, certa vez vieram à minha sala dois alunos com uma lata de alumínio, dessas de refrigerante, umas pilhas, uns ímãs, um CD e um pedaço de cartolina, dizendo que não conseguiam reproduzir um experimento que tinham encontrado no YouTube: "onde erramos?" Pedi que me mostrassem o experimento e, bem, o erro estava na capacidade deles de entender o que é ciência e o que não é - o suposto experimento era só um truque de mágica, filmado para parecer um experimento científico (infelizmente, não tenho mais o link do vídeo...).

É fácil enganar as pessoas: a maioria de nós - eu inclusive - não consegue mesmo discernir o falso do real em um grande número de situações. E especialmente quando há alguma emoção envolvida, ou quando existe um desejo de acreditar, aí é que fica difícil. Mágicos e políticos são profissionais que se aproveitam dessa característica humana, e a religião é totalmente fundada nessa qualidade, que é a credulidade.

A ciência, pelo contrário, tem que ser baseada no ceticismo. Um cientista tem que ser questionador, por necessidade. Sem perguntas e questionamentos não se descobre nada de verdadeiro. Pois bem, toda essa introdução eu faço para apresentar um exemplo de um questionamento necessário, cuja resposta achei muito boa. Segue então um texto, que não comentarei, pois ele fala por si mesmo, que foi retirado do blog n-Dimensional, que é um dos blogs que mora no condomínio Lablogatórios.

"Renan queria uma opnião tua sobre o documentario e o livro, “quem somos nos”.
Alguns professores meus falam de uma forma tao apaixonada que eu nunca tive coragem de assistir, assim uma opnião de alguem que eu não conheça mas admire os textos seria bem interessante. Um grande abraço"
"Renan Reply:

Olá Eduardo.

O “Quem Somos Nós” é simplesmente uma propaganda de seita travestida de documentário. Em poucas palavras, o “documentário” se utiliza de conceitos das Mecânica Quântica e outras partes “exóticas” da Física e extrapola os resultados de forma a fazer parecer que a Física apóia as idéias desta seita.

Tudo que você precisa saber sobre o documentário está no Guia em três partes do blog O Dragão na Garagem.Clique aqui.

Adiantando um pouco, para você ter uma idéia da “honestidade” dos produtores do documentário, um dos entrevistados que é Físico deu a entrevista dizendo que não apoiava as idéias da seita. A entrevista foi editada para parecer que ele as apoiava.

Abraços!"


(imagem: medidas anti-falsificação em uma antiga nota de 20 dólares; poucos sabem, mas Isaac Newton trabalhou para a Coroa britânica contra a falsificação de dinheiro e levou à forca alguns falsificadores; e o título desta postagem é uma homenagem a um romance de André Gide, cuja "obra articula-se ao redor da busca permanente da honestidade intelectual")

sábado, 7 de março de 2009

Astronomia Nova


Acabei de ver na TV a notícia do lançamento da missão Kepler da NASA. Tal missão consiste na colocação no espaço de um telescópio preparado especialmente para observar um grupo de estrelas e verificar se há planetas orbitando ao redor delas, com ênfase na busca de planetas "habitáveis".

Encontrar um planeta girando ao redor de uma outra estrela é algo como olhar para os faróis de um carro distante e notar a passagem de uma mosca na frente deles. Em termos mais técnicos, a idéia consiste em notar a diminuição no brilho de uma estrela devido à passagem - "trânsito" - de um corpo não luminoso na frente dela; se tal diminuição acontecer de forma periódica esse corpo deve ser um planeta. Devo ressaltar que um planeta do tamanho da Terra, passando na frente de uma estrela do tamanho do Sol, na distância que a Terra está do Sol, deve diminuir o brilho do Sol em cerca de uma parte em 10.000 (mais ou menos míseros 0,01% de variação).

Um planeta habitável, ao menos para nós, humanos, é um planeta nem muito grande nem muito pequeno que está nem muito longe nem muito perto de uma estrela nem muito quente nem muito fria, de forma que esse planeta possa ter água líquida em sua superfície. A Terra, por exemplo, tem água, mas a Lua, que está à mesma distância do Sol, não pode ter água líquida: ela é muito pequena. Vênus é quase do mesmo tamanho que a Terra, mas está perto demais do Sol: a sua temperatura superficial é muito alta. Já Marte está longe demais e é pequeno...

O universo é um lugar bem grande - só na nossa galáxia, a Via Láctea, deve haver bilhões de estrelas - e, por isso, o telescópio da missão Kepler vai ficar observando estrelas na vizinhança estendida do Sol, isto é, a atenção vai estar concentrada num grupo de estrelas na região de Cygnus ao redor do braço de Órion de nossa galáxia.






O nome da missão, Kepler, homenageia o alemão Johannes Kepler, que, há 400 anos, descobriu que os planetas do nosso sistema solar giram em elipses (que são "círculos deformados") ao redor do Sol, que fica num dos focos da elipse. Tal descoberta foi publicada em 1609, no livro Astronomia Nova.



Kepler só foi capaz de fazer tal descoberta por conhecer muito bem a matemática. E sua descoberta só foi superada, anos depois, pela explicação dela feita por Isaac Newton, em seu livro Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, que quer dizer "Princípios matemáticos da filosofia natural".

Contudo, Kepler não era apenas um matemático: ele era um pensador original, capaz de escrever Somnium, um livro do que hoje se chamaria ficção científica, descrevendo uma viagem à Lua... Além disso, como bom matemático ele era capaz de fazer cálculos astrólogicos, algo com que ganhou algum dinheiro e fama, prevendo a sorte dos ricos e crédulos, e que teria feito ele se tornar conselheiro de Rudolph II, imperador da região que hoje conhecemos como Áustria.

Hoje, 2009, vivemos o Ano Internacional da Astronomia em homenagem a Kepler e Galileu, que ajudaram muito a mudar a visão do lugar da humanidade na Terra. Aonde iremos como espécie, se sairemos desse berço em que hoje vivemos, depende só de nós e de nossa capacidade de conhecer o universo cada vez mais e melhor. A missão Kepler está aí para isso. E eu, professor e pesquisador de física e astronomia, faço minha parte a cada dia: que Deus me dê força e paciência para continuar, e que apareçam outros querendo seguir nesse caminho...

(imagem inicial: moeda comemorativa de 10 euros em homenagem a Kepler)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo


Imagine que alguém lhe diz que existe algo chamado de "lei da natureza", que faz com que as coisas, misteriosamente, tenham a tendência a ir para o chão. Você nega, usando contra-exemplos: e as nuvens? E a fumaça? A pessoa lhe desafia: ponha qualquer coisa na sua mão e depois solte - a coisa irá cair; e você não pode por uma nuvem na mão.

Então você e a pessoa, fazendo experimentos, podem chegar a um acordo: há dois tipos de coisas, as que caem ao chão, mais densas, e as que flutuam, mais leves. Se vocês quiserem estudar isso, é melhor se concentrar numa delas e esquecer, ao menos por um tempo, a outra. Pedras estão sempre à mão, e nuvens estão um pouco alto, então é mais fácil estudar a queda das pedras.

O estudo da queda dos corpos é fácil de ser feito: basta deixá-los cair e observar o que acontece. É simples deixar as coisas cairem de alturas diferentes e ver se há diferenças em cada queda. Com um pouco de prática vai dar para perceber que quanto mais alto o ponto inicial mais tempo demora a queda, mas não de forma linear. Com engenhosidade dá para se perceber um padrão: a razão entre a altura e o quadrado do tempo de queda parece ser uma constante...

Assim funciona a ciência: observação da natureza, criação de hipóteses, experimentação e, se tudo der certo, formulação de regras gerais. No processo, em geral é necessário simplificar, esquecendo complicações que podem ser abordadas mais tarde. E as nuvens? As nuvens você estuda depois.

Assim a ciência foi feita - e hoje as pessoas têm (ou podem ter se tiverem dinheiro) celulares, internet, TV, antibióticos, anticoncepcionais, e mais um mundo de coisas que veio como subproduto da atividade científica. Infelizmente, pouca gente está consciente de como isso aconteceu e acontece, e poucos sabem distinguir o que é ciência do que não é.

Ciência não é mágica e é distinta da especulação pura e simples: a ciência requer trabalho e coerência lógica (o que a especulação também pode exigir) e requer resultados práticos e comprovações (algo que a especulação pode passar sem). E a ciência é frágil, assumidamente: uma nova explicação pode surgir todo dia, bastando ser melhor do que a usada até então. Melhor em que sentido? Mais simples, mais prática, mais lógica, mais moderna, mais generalizante, melhor em um monte de sentidos possíveis. Não é só por ser nova que uma explicação deve ser aceita: ela deve prever resultados novos em novos experimentos, ou ajudar a reinterpretar os resultados antigos, ou fazer ambas as coisas.

A ciência é uma atividade humana, feita para melhorar - espiritual e materialmente - a vida humana, individual ou coletivamente, e é o melhor que o homem tem para isso. Nada fez tanto pela humanidade, e é difícil vislumbrar algo que venha a fazer tanto quanto ela. Não há mágica: só há o resultado do esforço acumulado de gerações, que pode e deve ser passado adiante. Pena que poucos se dêem conta disso: a maioria das pessoas gosta do que lhes agrada de forma fácil, e prefere ler contos de fadas do que buscar aprender realmente - fogem da matemática da mecânica quântica (pouquíssimos, e quase nenhuma mulher, estudam física a fundo, para saber do que se trata), mas pagam para ficarem encantadas com alguém que lhes diz que a alma é explicada pela mecânica quântica (não é).

(imagem: Galileu, em lembrança de quem se marcou o ano de 2009 como o Ano Internacional da Astronomia, e que estudou a queda dos corpos)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Almas mortas

E para terminar mais um domingo, outro vídeo...



"Someone take these dreams away,
That point me to another day,
A duel of personalities,
That stretch all true realities.

That keep calling me,
They keep calling me,
Keep on calling me,
They keep calling me."

Acho que estou mais perto...

Atom heart mother

Todos os dias de minha vida, se empilhados, um a um, acho que me permitiriam alcançar o céu. As xícaras de café que já tomei, juntas, formariam mares. E os pensamentos todos que eu já tive - oh! - esses certamente forrariam a Terra...

E, no fim, o que eu faço com isso tudo, essas montanhas, mares e planícies? Eu queria apenas acordar, e em cada dia, no café da manhã, ver a voz da chaleira se fundir ao som azul do fogo de meu fogão, como uma lembrança visual de que vale a pena continuar.

Deus, como eu queria saber dizer que há muito mais do que as palavras podem dizer, e que eu estou cheio disso, quase explodindo de delírios e sei-lá-mais-o-quê, um homem-bomba de sensações forçado a viver se escondendo entre burocratas de toda sorte...

Ah! Sei lá o que eu quero dizer! Fica uma música, então, um vídeo para fazer o serviço de que não sou capaz:



Um dia eu vi tudo isso com meus próprios olhos - e ouvidos - e sinto falta, muita falta.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

The evolving universe


Ontem, este blog completou dois anos. Esta é a postagem de número 199. E eu não acho que nada disso tenha muita importância: na minha frente uma palestrante fala sobre formação de estrelas em grupos compactos de galáxias, dando como um exemplo desses grupos o quinteto de Stephan, um conjunto de galáxias que está em forte interação, e cuja visão, ainda que em cores falsas, é lindíssima...

O universo é muito maior que eu, muito maior que minhas palavras ou minha imaginação e muito, muito, muito, muito mais belo. E nele estrelas novas se formam a cada dia. (Em tempo: minha filha faz sete anos hoje.)

(imagem: uma carinha sorridente...)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Um retrato do artista enquanto jovem


Eu nem queria saber voar: só queria é ter coragem de saltar, despreocupadamente, do décimo-primeiro andar...

(imagem: Paisagem com a queda de Ícaro, de Pieter Bruegel, século XVI - você consegue ver onde está Ícaro nessa imagem?)

O princípio da relatividade

Mais um ano, mais um congresso científico... Este até teve umas apresentações interessantes - vou tentar comentar algumas delas aqui, aos poucos.

Um dos assuntos abordados aqui é a natureza do espaço-tempo. Isso mesmo: espaço-tempo (com ou sem hífen após a reforma ortográfica?), que é uma união entre o espaço e o tempo, idéia surgida graças à teoria da relatividade de Albert Einstein. O espaço é o lugar onde as coisas existem e o tempo é... bem, o tempo é o tempo, e os dois - espaço e tempo - parecem coisas bem distintas. Por exemplo, usamos réguas e trenas para medir o espaço e relógios para medir o tempo, ou seja, aparelhos bem diferentes, indicando a distinção que fazemos entre o espaço e o tempo.

Einstein criou a relatividade restrita em 1905, mas quem notou que a teoria dele tinha embutida uma ligação entre o espaço e o tempo foi um ex-professor de Einstein, chamado Hermann Minkowski. Minkowski era um matemático e conhecia algo chamado "teorema de Pitágoras". O que ele viu na teoria de Einstein é que nela havia uma generalização do teorema de Pitágoras, usando quatro dimensões - três de espaço (altura, largura e comprimento) e o tempo...

O teorema de Pitágoras diz simplesmente que há uma relação entre os lados de um triângulo retângulo e sua hipotenusa, ou seja, sabendo o tamanho de dois dos lados de um triângulo retângulo pode-se saber o tamanho do terceiro lado. O que Minkovski notou é que uma relação similar vale para a luz: a distância percorrida por um raio de luz (distância=espaço) está ligada ao tempo que ela leva para percorrer essa distância do mesmo modo que a hipotenusa está ligada aos outros lados do triângulo. E tal relação tem validade universal.

Parece simples, mas é uma idéia com implicações profundas. Minkowski percebeu isso no final de 1908 e tirou as consequências de pronto: "space by itself, and time by itself, are doomed to fade away into mere shadows, and only a kind of union of the two will preserve an independent reality" (o espaço por si só, e o tempo por si só, estão fadados a desaparecer como sombras, e apenas um tipo de união entre os dois irá preservar uma realidade independente).

Einstein generalizou as idéis de Minkowski em 1915, na teoria da relatividade geral. E a nova visão que a humanidade pode ter do universo a partir daí foi - e é - revolucionária, sem falar na beleza (matemática) da coisa... Considero uma pena que a relatividade seja pouco conhecida, pois eu, que sou uma pessoa religiosa (o quê?!), acho a descrição do universo oferecida por ela muito mais bela do que a apresentada por qualquer religião ou mitologia. E uma beleza dessa não é algo de se jogar fora tão facilmente...

(imagem: "ampulheta" - o nome técnico é "cone de luz" - que serve de representação gráfica do espaço-tempo)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Crepúsculo

Hoje, vampiros são atraentes, com as mocinhas aprendendo no cinema que é emocionante se apaixonar por eles, e zumbis são cults, mas nem sempre foi assim. Eu vim de um mundo em que, quando criança, eu tinha pesadelos com vampiros e outras criaturas das trevas, que em meus sonhos me perseguiam para que eu fosse ou como eles ou fosse devorado por eles.



É, muito mudou: hoje vampiros e zumbis estão, entre outros lugares além das telas, nas direções de empresas públicas e privadas e nos governos, e, é claro, na ciência - em cada lugar desses se sobressaem os que não tem alma ou cérebro... Ai de quem não estiver com eles - serão apenas aberrações ou alimento.

Enfim, dava para ilustrar essa postagem com uma música, "We suck young blood", do Radiohead, mas é uma música meio deprê; fica a letra.

"Are you hungry?
are you sick?
are you begging for a break?

are you sweet?
are you fresh?
are you strung up by the wrists?

we want the young blood"

Só por precaução almocei macarrão com um bocado de alho...

sábado, 31 de janeiro de 2009

O livro da sabedoria


Dá para se fazer muitas coisas com os dedos. Tocar piano, violão, flauta e outras coisas, por exemplo. E, é claro, dá para usá-los para digitar textos e também para contar: nossa base de contagem moderna é decimal provavelmente por termos dez dedos nas mãos.

No entanto, o sistema de tempo que usamos - horas, minutos, segundos - não é decimal, é de base doze. Sessenta (minutos) e vinte e quatro (horas) são múltiplos de doze. E de onde vem essa base?

Cada dedo da mão tem três ossinhos: falange, falanginha e falangeta, vindo do pulso para as pontas. Ou seja, em cada mão temos um total de quinze ossinhos nos dedos de cada mão. Esquecendo o polegar, são doze.

Peraí, mas vale esquecer o polegar? Vale: o polegar serve de contador. Como? Pegue a mão direita. Ponha a ponta de seu polegar na ponta de seu indicador, fazendo um círculo. Pronto, você já contou o número um. Agora, vá até a primeira dobra do dedo indicador: você chegou ao número dois. Por fim, vá com a ponta do seu dedão para a última dobra do dedo: esse é o número três. Repita o processo em cada um dos dedos da mão direita e você terá contado até doze.

Mas e a mão esquerda? Bem, chegou ao doze com a mão direita? Feche um dedo da mão esquerda, e repita o processo de contagem na mão direita. Ao fim de outra contagem de doze na mão direita, feche outro dedo da mão esquerda. Fazendo isso cinco vezes - ou seja, uma vez para cada dedo da mão esquerda - você conta até... cinco vezes doze, que é sessenta!

Eis aí a provável base do sistema de horas, minutos e segundos que usamos. E, é claro, a provável base de outras coisas: ângulos (um círculo tem 360 graus, ou 30x12 graus, o que dá quase um grau por dia do ano - coincidência?), meses, signos do zodíaco, tribos de Israel (quem desses veio primeiro?), apóstolos...

Mas é claro que a "magia" do doze tem também a ver com o teorema de Pitágoras: o triângulo retângulo de lados com números inteiros mais simples tem lados 3 e 4 e hipotenusa 5, ou seja, perímetro igual a 3+4+5=12. Logo, doze é um número "sagrado": a nova Jerusálem do Apocalipse "tinha grande e alta muralha, doze portas, e, junto às portas, doze anjos, e, sobre elas, nomes inscritos, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel" (Ap 21:12).

Ainda bem que eu não tenho doze filhos! Mas acho que viveria feliz com doze mulheres (ou não)...

(imagem: ícone russo do Rei Salomão, o mais sábio dos reis judeus, que tinha muito mais mulheres que dedos ou dias do ano - ao que consta eram setecentas esposas e trezentas concubinas - e que, sábio assim, teria escrito um "Livro da sabedoria")

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Pesadelo

Eu sou um imbecil - já disse isso em outra postagem, mas não custa repetir. Se eu não fosse, esse blog teria muito mais sexo. Na verdade, teria sexo, ou trechos como "já tive um calo interessante, na ponta do pai-de-todos, de tanto bater siririca." Ou ainda, teria fotos de golfinhos tiradas por mim (o que, não sei o por quê, também me lembram sexo), momentos-golfinho, imagens eróticas, textos dirigidos a público feminino (falando de sexo, acho), etc. Ai, que inveja!

Mas, como todo imbecil, minha vida é absolutamente inútil e desinteressante (e não tem sexo). Minha vida é o resultado de uma seqüência de armadilhas que me prenderam uma a uma. Estou preso, e "agora já fugiria de mim se de mim pudesse." Que me resta, senão escrever, declamando a minha versão - pobre, é claro - do mal do século ("culto do egocentrismo, vazado de melancolia e pessimismo")? É isso mesmo: na verdade, como todo imbecil, sou muito apegado ao romantismo... Adoro poesia - e só tento fazer ciência (meu fator h é bem pequeno mesmo...) por ver poesia nela, o que é só mais um sintoma.

Enfim, se tivesse coragem eu escreveria contos e versos mas, pensando bem, para quê? Álvares de Azevedo ("A vida é um escárnio sem sentido. Comédia infame que ensangüenta o lodo") e Augusto dos Anjos ("Vês! Ninguém assistiu ao formidável/Enterro de tua última quimera./Somente a ingratidão - esta pantera -/Foi tua companheira inseparável!") já disseram tudo que eu poderia dizer como escritor e poeta.

Preso a mim e ao hoje, empurro os dias com a barriga, mas, imbecil, continuo sonhando: "você me prende vivo, eu escapo morto."

(imagem: Hamlet contemplando Yorick e dizendo "Que fizeram de teus sarcasmos? De tuas cabriolas e canções? De teus rasgos de bom humor que faziam sorrir toda a mesa? Nem um só gracejo agora para zombar de tua própria careta? Nada?")

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Tabacaria


Não posso dizer que não sou nada: na verdade, sou um imbecil, um imbecil patético, feio e pobre. E isso tem tudo a ver com eu ter em mim todos os sonhos do mundo. Consolo-me acreditando que não sou eterno...

(imagem: alegoria da eternidade, segurando o ourobouros, na Catedral de Milão)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Sete anos de pastor Jacob servia...

Eu sempre que tenho tempo ando xeretando na internet em busca de textos e informações interessantes em blogs. Muitas vezes deixo um comentário aqui e acolá.

Bem, recentemente visitei um blog de astronomia que apresentava numa postagem a provável razão de termos semanas de sete dias - não, não tem nada a ver com a agenda de Deus na época da criação. Há sete corpos celestes "especiais" que são visíveis a olho nu: cinco planetas (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno), a Lua e o Sol. Assim, temos um dia para o Sol (ou, em inglês, Sunday), um dia para a Lua (em inglês, Monday), um dia para Marte, etc, etc... Em espanhol a coisa fica bem clara: nessa língua os dias da semana, fora o sábado e o domingo, são lunes (da Lua), martes, miércoles (de Mercúrio), jueves (de Júpiter), viernes (do latim veneris, ou seja, de Vênus).

Enfim, a culpa é da astronomia.

Mas não é só isso: sete era um número sagrado para os antigos. Digitando no Google "sete numerologia" pode-se encontrar um punhado dessas crenças ligadas ao sete - sete pecados capitais, sete cores do arco-íris, sete pragas do Egito, etc (sem contar os sete anos de pastor do velho testamento que viraram belo soneto de Camões, com 2x7=14 linhas). Essa fixação pelo sete vinha da sua ligação com os números da divindade (3) e do mundo material (4) - afinal, 3+4=7...

Bem, na verdade, tudo isso tem a ver com o teorema de Pitágoras: o triângulo retângulo mais simples que se pode ter usando só números naturais tem lados (os catetos) de tamanhos 3 e 4, e hipotenusa de tamanho 5... Parece mágica, e foi assim que os povos antigos entenderam essa "conjunção" dos três números num triângulo retângulo. Logo, o 3, o 4 e o 5 se tornaram sagrados, assim como suas somas 3+4=7 (lados do triângulo) e 3+4+5=12 (perímetro do triângulo).

O 12 aparece como base de nossa contagem de tempo, sendo até mais fundamental que os dias da semana: temos dias de doze horas seguidos por noite de doze horas, em anos de 12 meses. E cada hora tem cinco grupos de 12 minutos, ou seja, 3x4x5=60 minutos...

E é de 60 segundos em 60 segundos que o tempo passa - o meu para fazer essa postagem já se acabou: fica mais para outra, que o 12 tem mais a dizer.

(imagem: demonstração do teorema de Pitágoras, sem uso de álgebra, por pura geometria)

O africano


Li num fôlego só "O africano", de J.M.G. Le Clézio, autor que, segundo a capa do livro, foi ganhador do Nobel de literatura de 2008. O livro é curto e macio, ou seja, desce suave e redondo, sem problemas. Eu até indicaria como ótima sugestão para alunos de ensino médio ou de sétima e oitava série de vinte anos atrás, mas não para os de hoje, que acho que não lêem, não gostam de quem lê e se pudessem matavam quem inventou a escrita.

A primeira coisa que me veio à mente foi "O amante" de Marguerite Duras, que também é um reencontro de um francês com seu passado na colônia - no caso, a Indochina. E há, é claro, "O estrangeiro" de Albert Camus, que salvo engano, se passa num lugar francês com árabes.

Nostalgia cai bem. Como uísque envelhecido num barril de carvalho. E os europeus adoram ter lembranças e acertos com seu passado "nobre". Eu, daqui da minha periferia do mundo, diria que um romance evocando tempos passados como "Éramos seis" não faria feio diante de textos como esse "O africano" - o que falta é o exotismo chique de nomes como Ogoja, Obudu, Banso...

(imagem: mulheres africanas, da etnia igbo)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Set the controls for the heart of the Sun

Se eu tivesse uma nave, hoje, ia direto para o coração do Sol...



Em tempo: eu passei o vídeo acima - com som - para os meus alunos de astronomia. Mas também indico para quem quiser um filme: "Sunshine".