sexta-feira, 20 de julho de 2007

Sermão de quarta-feira de cinza

Enquanto corre uma onda de histeria coletiva por conta do acidente com um avião no aeroporto de Congonhas, recebo a notícia da morte de meu vizinho, num acidente de carro. No meio de páginas e páginas nos jornais, cadernos especiais e milhares de imagens para os 'mártires' e 'heróis' do vôo da TAM, demoro a encontrar umas poucas linhas falando do meu vizinho, homem comum, que tinha duas filhas pequenas...

Há uma guerra aí fora. Não uma, mas muitas, que, enfim são uma só, há séculos, com faces diferentes em diferentes lugares: tráfico de drogas e balas perdidas ali, manchetes e distorções acolá, manifestações de ódio e preconceito contra uma empregada doméstica (ah! mas ela foi confundida com uma prostituta...) em outro lugar - tudo é uma coisa só, cujo nome não sei dar.
De um lado, os bons, cheios de virtude e certezas e beleza e inteligência, e bom gosto, e de outro os maus, os feios, os incompetentes, os que só tem defeitos e vilania: simples, não é? "E você de que lado está?"

Meu vizinho morreu, mas como não rende muito explorar seu cadáver nessa guerra, ele não será nem sequer esquecido: sua morte trágica, brutal e sem sentido, foi ignorada, quase que por completo. Resta a quem o conheceu, como eu, lembrar.

Em minha mente ficam ecoando frases que ainda lembro dos anos de catecismo de minha infância: "Rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte." Amém!

domingo, 15 de julho de 2007

O pastor amoroso

Hoje, o Brasil se sagrou campeão da Copa América. Meu aniversário é nesta semana. Aparentemente, não há nenhuma conexão entre esses eventos. E, no entanto, para mim eles trazem memórias, de outra Copa, quando a final aconteceu no dia do meu aniversário.

Depois do jogo, fomos a uma cantina italiana no Bexiga. A moça com quem eu saia então ficou comigo naquela noite, como 'presente'. Moramos juntos algum tempo, como amigos, na Bela Vista. Pouco tempo depois, ela se arrependeu de ter permitido a minha presença na vida dela.

Eu fiquei muito arrasado: eu era jovem e amava. Fiquei deprimido por vários dias, e fui aprendendo a não amar. Quem me salvou? Lembro-me como se tivesse acontecido ontem: na primeira vez em que saí de casa, fui a uma livraria e comprei um livro: "O eu profundo e os outros eus". Foi como reencontrar o meu coração.

Por isso decidi escrever, esta história e outras, não para provar que sou sublime, mas para talvez buscar o que eu vi de sublime: minhas palavras são isto, esta busca sem fim, em minha memória e em arranjos de frases, de uma beleza que eu tive em minhas mãos algumas vezes, e que, nos meus raros momentos de lucidez, lembro que existe, apesar de tudo.

Não sei onde anda a moça da Bela Vista: mas sei do eu que viveu lá, capaz de se apaixonar - continuo aqui.

O guardador de rebanhos

Numa votação recente o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, foi colocado entre as "novas sete maravilhas do mundo". Nada contra. Já estive lá, mais de uma vez, e a vista lá é mesmo fantástica.

Já vi outros Cristos também, no interior de São Paulo, no interior do Mato Grosso, em cidadezinhas quase esquecidas, que poucos conhecem. Quantos deles haverá no Brasil? Não sei se alguém já fez essa conta. Enfim, o Brasil é um país muito grande. Poucos são os brasileiros que sabem do seu tamanho, que o conhecem. Nem mesmo seus descobridores o conheceram: no Brasil cabe quase uma centena de Portugais.

Portugal, pequeno, não tem maravilhas na lista em que aparece o nosso Cristo. Não há, porém, o que chorar, caros amigos lusitanos: eu trocava, de bom grado todos os Cristos do Brasil por uma só página de Fernando Pessoa. A pedra de que o Cristo é feita ficará velha e precisará de retoques e reformas, o Rio de Janeiro provavelmente ficará mais sujo, mas a poesia de Pessoa, essa nunca ficará mais feia, e é uma maravilha que eu posso ver hoje, e amanhã, sem gastar um tostão, e sem me submeter ao risco de encontrar balas que alguém perdeu.

O Brasil é grande, mas os brasileiros grandes, ah!, são tão poucos... Talvez mesmo só um Cristo gigante - ou uma multidão deles - para nos redimir.

sábado, 14 de julho de 2007

Pequenos burgueses

Sentado na calçada, na frente da casa dos meus pais, vejo um grupo de mulheres da vizinhança se reunir. Uma delas segura no colo um bebê gordo e branco, enquanto outra tem nas mãos uma vassoura e uma terceira usa um avental de cozinha.

As casas aqui não têm espaços livres: todas enfileiram-se lado a lado, sem gramados ou quintais, num desfile contínuo e desgracioso de muros, portões e grades. Quase não há árvores. As ruas seguem sem vagas para se estacionar: em todo lugar há garagens. A paisagem é, ao mesmo tempo, sempre diferente e monótona.

Minha família é típica deste bairro, formado por pessoas com pouca instrução formal, migrantes, trabalhadores assalariados, moradores comuns de periferia. Gente rotulada de 'simples', para diferenciá-la dos outros, os não-simples.

Os outros, bom, esses são os que trabalham comigo, todos doutores, ou meus alunos, filhos da classe média e da elite, ou as pessoas que encontro na internet, que escrevem e comentam em blogs como eu.

Posso falar de meus colegas do trabalho: são fãs, em sua esmagadora maioria, de MPB, música clássica, rock e jazz. Meu pai, por sua vez, comprou num camelô, muito antes de que eu soubesse da existência de tal produto, um DVD da Banda Calypso, que ele viu e reviu talvez milhares de vezes... Nesta semana fiquei sabendo num almoço que alguns de meus colegas já tinham assistido "O segredo" - minha família nunca ouviu falar nisso.

Deve haver diferenças nesses mundos, mas daqui, da calçada, só vejo uma multidão cinza e entediada. Talvez o problema seja de meus olhos, ou da minha alma, onde todos os detalhes se diluem até se tornarem... detalhes, insignificantes, mínimos. Os homens podem tentar até se diferenciar uns dos outros, mas eu os vejo todos iguais, amorfos como o bebê quase careca que agora toma sol nos braços do seu avô.

domingo, 8 de julho de 2007

Fahrenheit 451

Domingo é dia de leitura de jornais. Gasto duas ou três horas nesse ritual, mais para saber onde me encontro. Em geral, o panorama que se descortina não é dos melhores, e eu prometo a mim mesmo que não perderei mais tanto tempo com uma vista tão dolorosa. Mas, acho que sou masoquista: no domingo seguinte lá estou eu de novo, fazendo tudo igual, folheando páginas e páginas de papel sujo.

A vida é isso mesmo, repetição após repetição, com umas poucas pitadas de sabores inesperados. Afinal, nós, humanos, somos criaturas de hábitos. E hoje, domingo, não foi diferente: encontrei, por exemplo, a notícia de que estudantes universitários lêem pouco, o que, para mim, não é novidade alguma.

Há alguns anos, não muitos, participei de um seminário com o reitor de uma universidade federal, em que apareceu como convidado especial um professor de outra universidade federal, "bolsista de produtividade em pesquisa" nível 1 do CNPq, uma sumidade, experiente e com qualidade, com uma centena de "artigos completos publicados em periódicos" no campo da física. O reitor começou o seminário falando sobre uma pesquisa que mostrava que os alunos universitários liam pouco, menos de três livros por ano, e o pesquisador convidado discorreu sobre assunto em sua palestra.

Bem, a opinião do professor era a seguinte: é assim mesmo que tem que ser. Os alunos de hoje não têm que ler. Num mundo competitivo não há tempo a se perder com leituras e livros: a informação tem que ser rápida, sucinta e objetiva, e para isso a internet basta. Querer que os alunos leiam é um anacronismo, uma visão ultrapassada, jurássica. A platéia, formada principalmente por educadores e pesquisadores da área de educação, foi ao delírio...

Quando estudante de pós-graduação, fui abordado num corredor por outro colega, estudante como eu, que me viu com um livro nos braços - era uma edição das "Tragédias" de Shakespeare. A interpelação dele, séria, foi: "Como você perde tempo com isso?"

Esse é meu país: aqui a elite mais educada acha o suficiente ter um diploma e produzir. Claro, esse é um país capitalista. Aqui nunca será necessário queimar livros por medo de que eles subvertam a ordem. A ordem e o progresso sempre estiveram e estarão a salvo, como nosso lema, a nos guiar entre as estrelas.

sábado, 7 de julho de 2007

Viagens de Gulliver

Uma história que redescobri recentemente começa com seu narrador dizendo que "Condenado, pela natureza e pela fortuna, a uma vida ativa e agitada"... Ah! Quanta inveja! Eu, aparentemente, fui condenado a uma pena diferente, a uma vida de imobilidade.

Já me explico: por conta de ventos, tempestades e minha imperícia, vim parar nesta terra que, descobri recentemente, é habitada por gigantes. Todos, aqui, são muito maiores que eu, que não posso me mover pelo perigo de ser esmagado por eles.

Aqui, não sou um homem. Sou uma outra coisa, tolerado por curiosidade, talvez, mas não um homem. O que eles fazem, eu não posso fazer: não tenho a estatura deles, não tenho sua qualidade, nem sua experiência.

Enfim, foram eles que me disseram, ontem mesmo, que eu não devia me mover, para o meu próprio bem - eles, que podem muito, e que só querem o meu bem, é que deveriam cuidar de tudo, fazer tudo, pensar tudo. São tão perfeitos, eles, estes gigantes: sabem tudo e mesmo que eu quisesse imitá-los não poderia - sei, por eles, que sou inferior em tudo, mas principalmente em tamanho, ambições e alma.

Assim, eu fico quase parado, fazendo apenas algo aqui e ali, consolando-me com palavras inúteis como estas. E o mundo, oras, é deles - eles são homens: eu não. Pelo que aprendi com estes gentis amigos, creio que pertenço à "mais perniciosa raça de pequenos e odiosos insetos que a natureza já permitiu rastejassem na superfície da Terra" (a descrição não é minha, mas eu devo aceitá-la - não sou capaz de descrições tão apuradas).

terça-feira, 3 de julho de 2007

Lúmen

Comecei a semana pensando numa lista, a dos DVDs mais vendidos em lojas "chiques" de São Paulo, publicada pelo jornal "O Estado de São Paulo", em que aparecem o "O segredo" e "Ivete Sangalo". Sinais de quem são meu povo, minha terra, meu país.

Mas os ventos mudam e, quando se permite, com ele avistam-se novas praias: hoje, com um amigo, no trabalho, participei de uma viagem como há muito não fazia. Partindo de uma notícia de jornal - sobre mais um escândalo - fomos divagando, flanando, à deriva, até que em um certo momento chegamos a um mar de livros francês, "Gallica", em que mil tesouros se escondem.

E, no entanto, era apenas a segunda surpresa do presente: antes, recebi, como dádiva, outra indicação francesa, tão ou mais preciosa que a primeira, mesmo sendo uma simples indicação de um filme, no blog de uma jovem moça, que acho que posso chamar de amiga.

O filme era "Os incompreendidos", de um cineasta francês da "nouvelle vague", François Truffaut. Quando a Rede Manchete de TV estreou, há séculos atrás, ele estava lá, atuando em "Contatos imediatos do terceiro grau". Em madrugadas insones da minha infância, vi "Fahrenheit 451" e "Uma noite americana", mas jamais esperava reencontrá-lo agora, onde o encontrei.

Uma indicação que surgiu numa conversa, um filme num blog, e eu fiquei com a sensação clara de que nunca vi antes
sinais tão claros de que navegar é precioso, e de que viver não é preciso.

domingo, 1 de julho de 2007

Alberto Caeiro

Uma amiga me pediu para falar de minhas viagens. Fiquei relutante, não por não ter o que falar, mas por imaginar que o que quer que eu falasse pareceria, para ela, absurdo. Tive medo de assustá-la.

Bem, eu fui à Europa: Paris, Londres, Roma, Veneza, Florença... Detestei Paris quase tanto quanto os parisienses pareceram me detestar, e amei Barra do Garças, no interior do Mato Grosso. No dia de um jogo da seleção brasileira - acho que era Brasil e Japão - fui buscar algo numa lanchonete às margens do rio, próximo ao centro da cidade, e vi, dançando graciosamente, um boto solitário.

Não, o Sena não tem tanta graça quanto o Araguaia, em que molhei os meus pés.
Simples assim, e em outras palavras:
"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia".

Pequenos poemas em prosa

Da minha janela eu vejo o céu. Desde criança o vejo e ele continua me parecendo belo, embora simples, quase trivial, mas ao mesmo tempo espetacular... Quantos pores-do-sol eu já vi? Lembro-me de ficar, quando mais novo, olhando as nuvens, procurando formas e padrões em viajantes de algodão vaporoso.

Me lembro ainda de um poema na capa de um Suplemento Cultural do jornal "O Estado de São Paulo", que meu pai comprara (que idade eu tinha, meu Deus? - 10, 9 anos, menos?), e que eu guardei por anos a fio,

"Ah! O que tu amas então, estrangeiro?
– Amo as nuvens… as nuvens que passam… lá longe… as maravilhosas nuvens!
"

Tenho saudade de outras terras em que vivi, onde eu podia ver muito mais estrelas, mas o céu daqui, ainda que manco e doente, é belo - e infinito.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Relics

Alguns fantasmas parecem estar me rondando: remexendo em minhas caixas de coisas velhas e surfando na internet fui levado, de forma confusa, não-linear, a um lugar de que eu já nem me lembrava, só para encontrar imagens e sons de um tempo em que havia bobagens e esperança - infelizmente, no vocabulário de hoje creio que ambos significam o mesmo.

domingo, 24 de junho de 2007

Buda

Nestes dias recebi uma mensagem de uma amiga antiga, cobrando que eu lhe escrevesse. Não sei direito o que responder. Ela é de um outro tempo, de uma outra vida que eu vivi, em outras terras, quando eu acreditava em mim, na humanidade, no meu país...

Hoje não sei no que eu acredito. Em Buda e no Nirvana, talvez. No caminho reto. Na ciência como diversão. No poder do dinheiro. Na existência da beleza.

Mas escrever o quê? As palavras podem tão pouco, minha amiga... Às vezes eu prefiro o silêncio. Hoje, como às vezes, a música: ouça, se puder, algo de Bach - as frases dele servem, hoje, para dizer o que eu sinto. Ou então sente-se debaixo de uma árvore, num dia ensolarado, e encontre a paz: nela você encontrará o que eu gostaria de poder dizer a você - e a todos.

Um abraço.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

My hero

Dizem que uma imagem vale por mil palavras, e que a música é uma linguagem universal. Acho que se isso for verdade, quer dizer que mesmo que eu escreva milhões das mais belas palavras, um vídeo curto, de uns poucos minutos, tem maior valor... Como não sou nem cineasta nem músico, deixo aqui uma das coisas que encontrei viajando pela internet e que fala por si mesmo, mas que também fala por mim de um jeito que eu jamais falaria.

E é isso: não sou um "artista", só escrevo um blog. Em resumo, posso muito pouco, e a cada dia descubro que posso menos ainda. Não é um brilho como o do sol que me encobre, fazendo-me invisível, mas uma simples lâmpada cotidiana.

domingo, 17 de junho de 2007

Leviatã

Hoje, parece que quem quer conhecer o mundo não precisa sair de casa: mesmo ignorando-se a internet, fantástica, onde quase tudo pode ser encontrado, pode-se apelar para a TV, que tem no mínimo uma dezena, quando não centenas, de canais jorrando informação a princípio vinda de toda parte.

No entanto, num domingo pela manhã, não foi isso que vi: num canal, a visão de soldados posando de heróis ao matarem inúmeros árabes; noutro, imagens de um esporte em que homens, em um campo verde riscado de números, corriam e se digladiavam violentamente, acho que atrás de uma coisa ovalada, que certamente não era uma bola; noutro, negros com correntes de ouro e óculos escuros e capuzes falavam num ritmo que eu não conseguia acompanhar; noutro, crimes encenados como diversão; noutro, anúncios intermináveis de traquitanas eletrônicas... De posse do controle remoto fui passando pelos mais de cinqüenta canais da minhaTV - a cabo - e naquela procissão de imagens vi uma só, um único monstro, falando uma única língua, uma única cultura, disforme, doente, um mosaico de violência, egoísmo e hedonismo.

Por um instante, acho que senti o terror que deve ter motivado alguns a jogar aviões e passageiros contra prédios, vendo neles não construções de aço e concreto onde viviam pessoas, mas uma encarnação real do - mal? não acho outra palavra - que vi na TV. O que eu vi, meu Deus?

Se a Estátua da Liberdade é símbolo de alguma coisa, hoje é disso: de algo que está em cada cidade, em cada lar, em cada tela quadrada desta nossa porção de mundo, milhões, bilhões de estátuas que, para o bem da humanidade, talvez devessem todas serem explodidas, derrubadas uma a uma, como símbolo da libertação de uma tirania. Mas que tirania! Doce enquanto cruel, e barulhenta enquanto silenciosa, e que promete o mundo mas entrega miragens entorpecedoras, vindas de um único deserto.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Contingência, ironia e solidariedade

Fazendo compras no Wal Mart encontrei numa banca de ofertas um livro ilustrado sobre as viagens de Marco Polo por menos de dez reais. Impossível não comprá-lo mesmo tendo dúzias de outros livros para ler.

No entanto, ao ler as descrições da China antiga e ver os desenhos do livro, o que me veio à mente foram outras viagens em outros livros: a literatura - e, é claro, a filosofia - são só isso mesmo, coleções de descrições de viagens imaginárias, mesmo que baseadas na realidade.

Uma cidade visitada, uma paisagem vista, não são nada diferentes de idéias que surgem na alma, de sonhos que se tem ao dormir, de textos escritos com uma linguagem não-escrita. A realidade, para todos os termos práticos, em tudo que importa, é só uma construção com uma certa sintaxe.

E as imagens que temos sobre o mundo são isso: frases que eu leio com os meus olhos de hoje de modo diverso ao que vi com os meus olhos de ontem, e que entenderei e descreverei de modo diferente amanhã. Quanto aos outros homens, então, pouco posso dizer: são outros mundos, distantes... Mas no meu isolamento, só reconheço a miséria humana, e me solidarizo com todos - por mais irônico que me pareça, hoje, invejo os que acabaram de morrer: a mortalidade é uma bênção que ainda não me alcançou em cheio.

Lithium

Nos últimos meses, o vento se apresenta ruidosamente nas janelas ao meu redor. A cidade está logo ali, do outro lado do vidro, mas eu estou longe demais dela, com meus ossos doendo sob o abraço constante de um frio que parece interminável.

Fico sozinho e em silêncio agora quase todos os dias. Quando quero companhia humana, ligo a TV nem que seja para ver e ouvir bobagens. Ontem, por exemplo perdi alguns momentos vendo um filme desconhecido, que depois descobri ter sido julgado impiedosamente como "a horrible little movie about a high school ancient history class". No entanto, por uns instantes ele foi para mim uma boa companhia, melhor do que a das paredes brancas de meu apartamento vazio.

O problema maior do silêncio e da solidão é que eles forçam à reflexão. Nesse filme, por exemplo, eu achei um espelho, que me seguiu até a manhã de hoje. Numa cena, um ex-professor, que havia acabado de dar a um antigo aluno um pequeno sermão sobre virtudes, recebe uma resposta do tipo "Quem dá a mínima para isso?". Tal frase ecoou profundamente em meu apartamento e ressoando se fixou em meu crânio.

Na cama, à noite, eu ainda podia ouvir a redescoberta silenciosa que tais palavras me trouxeram: eu sou nada. Aos quarenta anos, eu sou nada. Portanto, nunca serei nada. No entanto, "quem dá a mínima para isso?" Eu viajei muito, vi diferentes terras e paisagens, só para chegar em casa e encontrar uma terra arrasada e infértil, jazendo sobre os meus ombros. Agora é tarde, mas só agora descobri que meu talento é nenhum.

Sou um professor ridículo, de um filme de quinta categoria, que ninguém viu, e que escreve em silêncio palavras que ninguém lê. Meu trabalho, meu destino, é esse: semear no vazio para colher o vento. E ainda estou no outono: o inverno parece que vai ser longo. Mil aulas inúteis ainda me esperam, de segunda a sexta, quase todas as noites.