quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Avatar



Preste atenção nas imagens e no som...

O mistério de Sirius



Estou em meu período de férias há cerca de 20 dias (um pouco mais, talvez). E só ontem, sem as crianças por perto (elas foram ao cinema, ver "Astroboy"),  me dei conta de que realmente estou em férias e de que poderia fazer coisas que me agradam e que geralmente não tenho tempo para fazer. Seguindo o caminho das crianças, pensei: "vou ao cinema!" Mas aí vi as opções e, bem, desisti: melhor gastar tempo lendo alguma coisa. É muito mais fácil achar algo interessante para ler do que algo interessante para assistir.

Nem todo livro aparentemente saboroso o é de verdade. Tenho vários livros que comecei a ler e parei, tendo perdido o interesse. Um exemplo? Um livro de Richard Dawkins, "A grande história da evolução", que é, realmente, grande, grande demais. Outros livros, porém, são como pacotes de doces que não se consegue parar de comer. Comigo funcionou assim o livro "Os erros de Einstein", de Hans Ohanian, que dá uma excelentíssima revisada em muitos conceitos e histórias da física moderna. Foram mais de 400 páginas que li em pouco tempo, com gosto de "quero mais".

Ontem, então, fui até uma livraria de um shopping, onde demorei a encontrar a prateleira de livros de ciência, que, na verdade, não existia: o que havia, entre dezenas de estantes de "esoterismo", "auto-ajuda", "direito", "literatura estrangeira", "literatura nacional" e sei-lá-mais-o-quê,  era uma prateleira com o nome "outros assuntos".

No fim, escolhi dois livros dessa prateleira (um de matemática, "A solução de Poincaré", e outro sobre astrobiologia, "Planetas solitários") e fui a um vendedor perguntar sobre a existência ou não de um título de ficção científica. O rapaz, que rapidamente me atendeu, viu minhas escolhas, me ajudou a procurar o outro livro (que a livraria não tinha nem em seu catálogo geral) e sugeriu amistosamente um outro título: "pelo que você pegou, sei que você vai gostar".

Eu agradeci, fiquei só com o que já tinha pego e fui para outra livraria, onde comprei "Cabeza de Vaca", livro de Paulo Markun, que eu queria ter escrito (já contei algo da história de Cabeza de Vaca aqui nesse blog, história que li em inglês, anos atrás).

Nessa última livraria havia uma fila no caixa, e um senhor, na minha frente, se virou para comentar comigo: "ainda bem que aqui não corremos o risco de levar uma tacada na cabeça". É, eu pensei, ainda bem, me lembrando do vendedor da primeira livraria que, solícito, me levou até a estante de livros esotéricos, onde, vendo o que estava em minhas mãos, me ofereceu "O mistério de Sirius".

(imagem: Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno, numa imagem do telescópio Hubble)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Persépolis



Ontem à noite, zapeando por entre dezenas de canais cheios de lixo, encontrei, praticamente escondido, "Persépolis". Nesses tempos em que propagandas disfarçadas de conversas e críticas sobre o megalomaníaco "Avatar" de James Cameron inundam a mídia, o contraste não poderia ser maior. Enquanto "Avatar" (que eu não vi) é mais um produto comercial escancarado do que um filme propriamente dito, com bonequinhos no McDonalds, "Persépolis" é uma história em quadrinhos que foi filmada depois do livro publicado ter sido um relativo sucesso (o livro com os quadrinhos foi "eleito" o segundo melhor livro da década).

"Avatar" parece ser um apanhado de clichês, misturando capas de discos do Yes com os Smurfs crescidos, com "Brincando nos Campos do Senhor" (filme em que a atriz Daryl Hannah aparece nua), juntando tudo isso com ficção científica para parecer menos infantil. Já "Persépólis" é uma estória biográfica, aparentemente real e simples.

"Avatar" explora as tecnologias de imagem dos videogames, lembrando "Final Fantasy", enquanto "Persépolis" é quase todo em preto e branco, desenhado em nanquim. "Avatar" é um projeto capitalista com um diretor masculino, e um protagonista homem, ao passo que "Persépolis" é um projeto pessoal, nitidamente feminino do começo ao fim.

"Avatar", com seus 161 minutos, deve abocanhar algum Oscar, enquanto "Persépolis", com cerca de 90 minutos, ganhou prêmio em Cannes (e em São Paulo!).

Acho que eu me apaixonaria facilmente pela autora de "Persépolis", Marjani Satrapi: nenhuma das mulheres que eu conheci seria capaz de contar sua própria estória com tanta graça... No Brasil, não creio termos ninguém nem de longe parecido com ela. Quadrinhos, aqui, são um território masculino.

Para finalizar, lembro que no rádio do carro, ontem, ouvi um comentário sobre a imensa quantidade de salas de cinema de São Paulo - só ontem havia 47 opções de filmes à disposição. 47! A maioria, no entanto, é como "Avatar" ou os canais da minha TV: comércio, comércio, comércio e propaganda cultural estadunidense e capitalista. Muito para se ver, pouco para aprender.

(imagem: algo que vale a pena achar nas livrarias)

sábado, 9 de janeiro de 2010

100 praias que valem a viagem



Eu estava na praia até meia hora atrás, caminhando a esmo entre os zilhões de turistas, tentando apreciar a beleza dos padrões confusos das ondas quebrando na areia, o passeio apressado das poucas nuvens no céu azul, a magia do vôo de uns poucos pássaros, e de repente, ouvi "Every time you go away", de Paul Young, numa versão em português, em ritmo de pagode. Foi o suficiente para eu vir me esconder numa lan house, onde achei um vídeo interessante sobre o lugar e a escala da Terra (e das pessoas) no universo conhecido.

Pois é: há certas horas em que sinto que o universo estaria melhor com os dinossauros - a humanidade, apesar do seu tamanho desprezível, parece ser um grande, enorme desperdício (veja o vídeo nesse link e me diga se eu tenho ou não razão...).

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

2010: uma odisséia no espaço II




Um leitor desse blog me lembrou, e está na página inicial da wikipedia de hoje, 7 de janeiro:

"1610 - Galileu Galilei observa pela primeira vez três das luas de Júpiter através de seu telescópio: Calisto, Europa e Io."

Ou seja, há quatrocentos anos, o tamanho do universo que conhecemos aumentou consideravelmente, graças à curiosidade de um homem que quis ver mais que os seus contemporâneos. Pois o telescópio já existia, não tendo sido inventado por Galileu. No entanto, foi ele o primeiro a apontar um telescópio para o céu (adivinha o que o pessoal fazia antes com telescópios...). E o que ele achou lá no céu trouxe muito mais riquezas para nós aqui na Terra do que qualquer outro uso prático do telescópio, já que foram riquezas que não enferrujam, nem podem ser roubadas por ladrões...

E, é claro que, em retribuição aos seus serviços, Galileu foi condenado pela então poderosa Igreja Católica, por divulgar heresias. Hoje, as luas que Galileu descobriu são chamadas, em conjunto, de satélites galileanos, e podem ser vistas com certo destaque em livros científicos, imagens de sondas e equipamentos da Nasa e em obras de ficção científica (como a que dá nome a essa postagem): sic transit gloria mundi. A Igreja? Tal como os homens, não creio que tenha mudado...

(imagem: as luas galileanas, numa montagem encontrada no site do Hubble; haverá vida nos oceanos de Europa?)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A glorious dawn



Sem comentários, senão este: a dica foi do Coletivo Ácido Cético. Divirtam-se!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Suicide by star / Surface of the sun



É quase o fim de mais um ano. Mas não importa se é o fim ou o começo, sempre pode-se esperar mais: talvez um novo tipo de matéria, escura, tenha se mostrado levemente nas profundezas de uma mina, e talvez um reflexo do sol tenha revelado um novo lugar para se encontrar vida...

Quanto a mim, eu nunca soube quais das minhas esperanças iriam se concretizar, mas elas continuam aparecendo, dia após dia, ano após ano, na maioria das vezes apenas como possibilidades remotas ou meros devaneios, e sei que elas vêm porque preciso delas - eu, infelizmente, não consigo viver só do pão nosso de cada dia.

Enfim, há sempre um dia após do outro, e cada um com suas novidades: ontem acho que ouvi uma moça cantarolando algo que entendi ela me dizer que era Snow Patrol, e fui tentar saber o que era. Não, não é minha praia, mas vale para mim o que eles dizem: "I don't quite know / How to say / How I feel". De descritível, talvez, só esse meu desejo de muita luz... Com sorte, mergulho no Sol antes que ele se apague.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Creep

Eu sou um homem ridículo e desprezível. Se eu não escrevi isso aqui ainda, pelo menos umas 750 vezes, eu não disse nada sobre mim. Eu sou nojento, repulsivo, com uma alma que é algo como o cruzamento entre uma lesma e um inseto horripilante, de incontáveis e disformes pernas, asas e apêndices, exalando um odor fétido, babando o tempo todo. Não, eu não sou nem bonito nem interessante de se ver.

E, embora eu fique tremendamente deprimido por ser um lixo de pessoa, me assombra muito que eu seja capaz de fazer ciência. Eu escrevo artigos, tenho idéias, faço pesquisa, vou a congressos, oriento alunos. No final, daqui a umas poucas décadas, quando eu estiver morto, enterrado e devidamente esquecido, se o resultado de minha pesquisa científica for útil, ninguém vai ligar para quem eu fui.

Eu sou um pesquisador da área de gravitação e cosmologia. Eu trabalho com a teoria da relatividade geral, procurando por soluções das Equações de Einstein (com maiúsculas mesmo), que descrevem como a matéria pode alterar o espaço e o tempo, numa escala que pode ser local ("gravitação") ou global ("cosmologia"). E para minha pesquisa pouco importa quem foi Einstein, se um santo ou um monstro, se judeu ou nazista.

A ciência é uma criação da mente humana que vai além dos homens, muito, muito além dos indivíduos. E para participar dessa empreitada basta querer. Creiam-me, é uma jornada de certo modo redentora, pois nela mesmo vermes miseráveis, como eu, podem dar alguma contribuição, encontrando assim algum sentido para vidas que de outro modo seriam apenas inúteis e ridículas.

Sim, provavelmente eu não seja digno de ser um homem, mas mesmo assim, sendo um cientista, ainda que pequeno e limitado, eu posso me esforçar para deixar algo de valor para o resto da humanidade: é minha única chance de salvar o pouco de bom que possa existir em mim. Até onde eu sei, nenhuma religião (e eu já conheci várias) abre esse tipo de porta.

(imagem: "Creep" é uma música da banda inglesa Radiohead, com o refrão "But I'm a creep, I'm a weirdo.What the hell am I doing here? I don't belong here" - acho que não há imagem que possa ilustrar isso...)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Oscillate wildly



Palavras? Não tenho. Idéias? Nenhuma que preste. Hoje, simplesmente, não sei se devia estar aqui, se devia existir...

domingo, 29 de novembro de 2009

Era dos extremos



Outro dia, em setembro, a capa da revista Superinteressante destacava uma reportagem apresentando nova visão da Segunda Guerra Mundial. Nova visão? Como assim? De acordo com a revista, "Novos dados e documentos estão reeescrevendo a história do maior conflito da humanidade. Pra começar, agradeça aos comunistas por nos livrarem de Hitler."

Para o brasileiro médio, educado pela cultura cinematográfica dos Estados Unidos, pode parecer chocante ouvir que não foram os americanos que derrotaram Hitler. Para mim, leitor de Hobsbawm, a história é mesmo outra, há muito tempo.

Eu lembrei disso, em parte, por estar presenciando, na universidade onde trabalho, uma campanha eleitoral para reitor. E também por conta de uma discussão envolvendo uma acusação contra o presidente Lula, acusação surgida num texto escrito por alguém que disse que ouviu isso e aquilo, e que outros dizem que não foi bem assim.

Adeptos de um certo relativismo cultural e histórico gostam de afirmar que não há fatos, mas sim versões. Eu não sei se concordo, mas sei que há mesmo, muitas vezes, interesse em se contar diferentes versões de um mesmo acontecimento. Por exemplo, sai a notícia de que o político X foi flagrado, em vídeo, recebendo dinheiro vivo. O político X, em sua defesa, diz que recebeu o dinehiro, mas não era nada escuso: era para comprar panetones na campanha, ou coisa do tipo. Em quem se deve acreditar? Qual versão é a verdadeira?

Não sou dono da verdade. Mas sei de algumas coisas. Em geral, posso descrever bem alguns acontecimentos de que participei. Sei dizer o que eu comi no café da manhã, por exemplo; talvez minha esposa, que mora na mesma casa que eu, não saiba. Mas talvez eu não queira que ela saiba que eu flertei com a empregada (em tempo, para não assustar meus leitores: eu não tenho empregada!).

Enfim, há interesses e interesses. Me lembro que, com menos de dez anos, ao descobrir que todo mundo era interesseiro, egoísta e individualista por natureza, eu fiquei chocado. Só que, é claro, o choque existiu por eu não me considerar interesseiro, egoísta e individualista: eu esqueci, de propósito, que tinha o interesse de me mostrar a mim mesmo como mais bonzinho que o resto das pessoas.

Moral: sempre é bom andar "cum grano salis". Ceticismo faz bem à saúde, mas sal demais também causa hipertensão.

(imagem: um saleiro - "Vós sois o sal da terra. E se o sal perder sua força, com que outra coisa se há de salgar? Para nada mais fica servindo, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens." (Mateus, 5:13) )

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Alguma poesia



Há alguma coisa muito errada comigo: eu quero só coisas impossíveis.

Eu não queria a rotina das três refeições por dia. Eu sempre quis a liberdade me alimentar quando eu estivesse com fome, de preferência com pratos repletos de poesia. Não, eu nunca quis o mundo, nem nada em particular deste mundo, mas mundos, além deste.

Eu quero, ainda, sonhar.

(imagem: "Mundo, mundo, vasto mundo")

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Gênio obsessivo



Marie Curie, cientista ganhadora de dois prêmios Nobel, veio de uma família de classe média baixa. O pai era professor, a mãe morreu de tuberculose e ela teve de trabalhar, em parte para se sustentar e em parte para auxiliar nos estudos da irmã mais velha. Essa história é bem contada nos primeiros capítulos do livro que usei para nomear essa postagem, "Gênio Obsessivo":
"Mas ela imaginava um futuro melhor. À noite estudava, e acordava antes das seis para continuar sua educação autodidata. Escreveu que estava lendo "a Física de Daniel, da qual acabei o primeiro volume; a Sociologia de Herbert Spencer em francês; Lições de anatomia e fisiologia de Paul ber em russo". Ela tendia para a matemática e a física e se esforçava sozinha para aprender as matérias que achava que precisaria saber quando Bronya [sua irmã] a chamasse. O pai lhe enviava com regularidade problemas matemáticos para ela resolver e aconselhava que ela ficasse estudando para não ficar para trás na vida. Aos dezoito anos, ela já "adquirira o hábito do trabalho independente": chegar às próprias conclusões, sem ser condicionada pelas percepções aceitas, mais tarde ajudaria em suas descobertas surpreendentes."
Isso era lá no arcaico século XIX, na distante Polônia. Hoje, no moderno Brasil do século XXI, dá para achar alguém parecido? Aliás, a poderosa elite intelectual brasileira produziu quantos ganhadores do prêmio Nobel mesmo? Nossos meios de comunicação, com seu famoso padrão de qualidade, produzem coisas como a "Menina Fantástica 2009", em que uma das participantes declara "Queria mais que tudo na minha vida ser a Menina Fantástica. Gosto muito de estar na casa e de todas as meninas. Não queria sair agora”.

No rádio, hoje pela manhã, ouvi Lulu Santos cantando
"Assim caminha a humanidade
Com passos de formiga
E sem vontade..."
De novo, acho que não tenho mais nada a declarar. Ah, não! Me enganei: no local onde trabalho há um conselho composto por uns dez professores e pesquisadores universitários eleitos entre os pares - embora houvessem candidatas, nenhuma mulher foi eleita como titular.

(imagem: eu olho para a senhora Curie e me lembro de que no Fantástico de ontem se falava de implante de silicone - é algo bem na moda, especialmente no Brasil)

domingo, 22 de novembro de 2009

Lua Nova



Eu já escrevi sobre "Crepúsculo" aqui antes, e na postagem imediatamente anterior a essa reclamei de ir a uma livraria para só encontrar coisas como "Crepúsculo" e "Lua Nova". Pois bem, meu amigo Hermenauta desencavou uma bela análise sobre essa série de livros para adolescentes, tão boa que eu deixo aqui um "resumo":
"A série Crepúsculo criou um surpreendente novo sub-gênero de romance adolescente: o pornô de abstinência, sensual, erótico e excitante."
"Os livros Crepúsculo fundem a perda de virgindade de Bella com a perda de outras coisas, incluindo seu senso de identidade e sua própria vida. Tal tratamento super-exaltado da abstinência reforça a idéia de que Bella é impotente, um objeto, um fato que é realçado quando se chega às cenas de sexo em "Amanhecer"."

"Edward tem todo o poder, enquanto Bella — e leitoras — romanceiam o homem perfeito que não existe."
Eu desconfiava que havia algo por trás desse negócio que é a venda de best-sellers para adolescentes, e acho que deve ser isso mesmo: vender para um bando de meninas ingênuas a idéia - que agrada a elas - de que pode existir romance sem sexo de fato (pode até rolar uma bolinação, uma pegadinha aqui, um toque ali, mas sexo mesmo, nananinanão). Tal idéia em si nem é tão ruim: só é irreal e infantil, tão irreal e infantil quanto achar que um vampiro pode ser um amante ideal.

Creio, porém, que há mais: parece haver motivações religiosas escondidas nas entrelinhas de "Crepúsculo" e suas continuações. A autora dos livros é mórmon, e - meninos, eu sei do que estou falando: fui batizado por eles e convivo com esse pessoal todos os dias - isso é, para mim, bastante assustador.

Em primeiro lugar, quem são os mórmons? Recomendo a leitura de "Pela Bandeira do Paraíso", livro de Jon Krakauer, mesmo autor de "Na Natureza Selvagem" (livro que deu origem àquele filme do adolescente que foge para o Alasca), onde se encontra um belo histórico dos mórmons. Eis o que escreveu alguém que comentou o livro: "Eu posso dizer com quase certeza que os mormons são meio doidos. As coisas que eles acreditam são da pá virada." A descrição desse livro no Submarino também é, digamos, interessante: "Um duplo assassinato praticado por mórmons fanáticos é o ponto de partida de Jon Krakauer para refletir sobre a natureza da fé e suas manifestações radicais. Ao tratar de temas como intolerância, violência, revelações divinas, poligamia e pedofilia. Pela bandeira do Paraíso reconta a história da religião mórmon e da eclosão de suas seitas fundamentalistas". Em tempo: o subtítulo do livro é "Uma história de fé e violência".

Em segundo lugar, eu posso deixar aqui minha opinião pessoal sobre os mórmons: eu não ficaria espantado se existirem de fato semelhanças entre a arquitetura da capital mórmon, Salt Lake City, e a arquitetura fascista (se não me engano, uma colunista da Folha de São Paulo apontou essa semelhança anos atrás).

Onde na série "Crepúsculo" entram as idéias dos mórmons? Há vários comentários a respeito, e um exemplo típico é uma lista que encontei na rede, no cache do Google, que é bem plausível. Deixo aqui apenas o primeiro item:
 "1. Os mórmons acreditam na deificação - você se torna um deus ou uma deusa através dos vários rituais e práticas deles. Certamente isso é o que os vampiros de Meyer's representam. Os deuses da Terra."
Por fim, repito aqui minha conclusão (que já estava lá em cima): isso é um negócio, feito para tirar dinheiro de meninas ingênuas, tal como eram o Menudo e coisas tais, mas é um negócio que acaba enchendo a cabecinha dessas meninas de idéias ridículas e infantis, o que facilita muito torná-las, quando elas crescerem, mulheres ridículas, infantis e manipuláveis. Pena: eu preferiria mais Maries Curies, mas vejo que é mais fácil encontrar vampiros (disfarçados de mórmons, talvez, ou vice-versa, ou sei lá...).

(imagem: uma vampira clássica, numa cortesia da wikipedia)

sábado, 21 de novembro de 2009

Em busca de um mundo melhor



Eu ando meio irracional estes dias. Por exemplo, sem mais nem menos me deu vontade de ler poesia. Mas não qualquer poesia, e sim João Cabral de Melo Neto. Fui ao shopping mais próximo de minha casa, que se gaba de ter "mais de 63 mil metros quadrados" e receber "mensalmente 1,3 milhão de clientes", e na única livraria existente lá, recém-reinaugurada, entre prateleiras e bancadas repletas de coisas como "Crepúsculo" e "Lua Nova", não encontrei livros do autor que eu buscava. Típico de um mundo de periferia, e algo que já tinha me acontecido antes, há uns 15 ou vinte anos, quando, na mesma cidade, busquei Shakespeare e também não encontrei.

Mas não saí da livraria de mãos vazias. Embora sem tempo, senti vontade de fazer algo que eu fazia em minha adolescência, que era escutar os livros e esperar um deles me chamar. Ei! Pera lá! Escutar livros? Sim, isso mesmo. Eu tinha o hábito, há muito perdido, de ir a bibliotecas (eu era pobre e não frequentava livrarias) e andar sem direção entre as prateleiras e estantes para ouvir algum livro me chamar.

Isso é algo totalmente irracional. Todos sabem que livros são objetos inertes, que não fazem nada se você não fizer algo com eles. Livros não chamam pessoas. E, no entanto, era assim que eu escolhia meus livros em bibliotecas, muuuuuitas vezes. E não só livros: discos também. E filmes também. Eu fazia escolhas assumidamente irracionais, impulsivas talvez, malucas certamente. E foi assim, "ouvindo o universo", que escolhi fazer física, por exemplo.

Lá vou eu divagando de novo. O que eu quero dizer é que eu parei no meio da livraria do shopping e, de repente, comecei a caminhar sem rumo, até chegar numa prateleira onde Karl Popper me chamou. Eu nunca li nada do sujeito, nem saberia dizer que livros ele escreveu e, assim mesmo, peguei o livro que me chamava e o comprei, sem nem perguntar o preço antes.

Eis como cheguei ao seguinte trecho:
"Comecemos pelo conhecimento. Vivemos numa época em que, mais uma vez, o irracionalismo virou moda. Por isso, quero iniciar com a confissão de que vejo o conhecimento das ciências naturais como o melhor e mais importante conhecimento que temos - embora não o considere nem de longe o único."
Acho que, ao menos por ora, não tenho nada mais a acrescentar. 

(imagem: Philosophy, mural pintado por Robert Lewis Reid, presente na Biblioteca do Congresso, em Washington, nos Estados Unidos; segundo a wikipedia, a pintura é acompanhada da legenda "HOW CHARMING IS DIVINE PHILOSOPHY" - eu não pude deixar de notar que a moça está com um seio à mostra: seria um vislumbre da verdade?)

A interpretação dos sonhos



Acordei hoje me lembrando de dois sonhos distintos. Num deles, eu era irmão do doge de Veneza que, tendo contrariado várias pessoas, era traído por elas e passava a perseguí-las. Eu, no entanto, era amigo do grupo de perseguidos e gostava de meu irmão, portanto, tinha que me manter em cima do muro. No outro sonho, o contexto era totalmente outro: eu, nos tempos atuais, estava tendo um caso amoroso que, se descoberto, causaria um escândalo. Mas havia janelas e um fotógrafo com uma super máquina  fotográfica... Enfim, eu consegui pegar o sujeito, que me chantageava, e destruí as fotos.

Eu muitas vezes me surpreendo com a capacidade inventiva de meu inconsciente (ou seria o meu subconsciente?). Já tive sonhos de vários tipos, alguns de interpretação óbvia, mas outros que me deixam boquiaberto. Já tive sonhos em que fui um cavalheiro inglês do século XIX, uma mulher da corte francesa e até mesmo um alienígena de uma raça em guerra e ameaçada de extinção (aliás, a ficção científica é um tema comum de meus sonhos).

Outra noite sonhei que havia um golfinho branco assassino assustando as pessoas. Na caça por esse bicho havia o capitão de um barco que - surpresa! - era o golfinho disfarçado... Minha análise? Eu misturei Tubarão, Moby Dick e um episódio dos Simpsons em que há uma revolta dos golfinhos e criei a minha estória original. Ou seja, meu inconsciente trabalhou fazendo um ótimo processo de reorganização de pensamentos, unindo um filme, um livro e um seriado de TV, para criar uma estória com moral: Tubarão e Moby Dick falam do medo e da luta constante da humanidade diante das forças irracionais da natureza, mas meu inconsciente me alertou de que essas forças estão também aqui entre nós, humanos, disfarçadas...

Meus sonhos são muito mais ricos que isso, porém - e é algo assustador. Exemplo? Ainda adolescente, tive um sonho longuíssimo dividido em várias partes (eu acordei entre cada uma delas, mas ao voltar a dormir o mesmo sonho continuava). Nesse sonho eu era um francês algo rico que desagradava alguns poderosos da época. Eu decidia fugir mas sabia que estariam à minha procura. Eu tinha que ir embora da França e decidia ir para a Inglaterra, onde tinha amigos, mas sabia que estariam me esperando em Calais; logo fui para Marselha. E é aqui que devo fazer a primeira pausa: eu não sabia, na época, onde eram Calais e Marselha. Eu sei que não sabia por ter ficado assombrado com os nomes, que para mim eram diferentes e que fui buscar numa enciclopédia (lembrem-se, meninos e meninas, na época da minha adolescência não havia internet, e nem mesmo TV a cabo...). Bem, Calais, eu descobri, é um porto no norte da França, próximo à Inglaterra, enquanto Marselha é um porto no sul da França (na direção oposta...). Juro: conscientemente, eu não sabia disso.

Entretanto, não parou por aí: eu cheguei à Inglaterra e para me esconder melhor embarquei num navio que ia de lá para outro lugar. Na saída do porto, ouvi o capitão fazer um discurso que falava de estarmos indo descobrir novas terras para a glória do rei, George III. E todos gritavam algo como "longa vida ao rei". Aqui vem outra pausa explicativa: George III? Quem foi esse sujeito? Eu acordei com o nome me incomodando (junto com Calais e Marselha) e fui a uma enciclopédia em busca dele: ele foi rei da Inglaterra de 1760 a 1820, famoso por duas coisas - uma doença que o deixou louco e a independência dos Estados Unidos, mas eu não sabia disso, pelo menos conscientemente. Houve descoberta de novas terras pela Inglaterra nessa época? Bem, houve James Cook, que fez uma viagem famosíssima em 1770 para mapear as ilhas do Pacífico. Na época, eu não sabia disso.

E a minha estória não termina aí: na terceira parte do meu sonho eu vi o naufrágio de um bote que saía do barco para explorar uma região no Canadá. Eu me lembro bem disso: era o Canadá. O que o Canadá tem a ver com o resto desse sonho? Oras, para minha imensíssima surpresa, James Cook foi o primeiro a mapear a região da Terra Nova, no Canadá, entre 1762 e 1767, numa viagem que permanece até hoje "largely unknown and ignored".

Ora bolas, como é que o inconsciente de um adolescente de periferia foi montar um roteiro tão convincente, tão articulado, sozinho? Eu, sinceramente, até hoje não entendo. Posso, quando muito, supor que minha "alma" tem capacidades que eu desconheço. E essas capacidades já se manifestaram muitas vezes: eu poderia contar aqui várias outras estórias "interessantes", que mostram que eu dormindo enxergo muito mais que acordado...

Para finalizar, deixo aqui uma última historinha: outra manhã, acordei com um susto imenso, daqueles causados por pesadelos. Contudo, não era um pesadelo: o que me aterrorizou, no sonho, foi uma declaração de amor, feita para mim por uma moça que conheço e que, na vida real, nunca esteve muito próxima. Como interpreto isso? Foi uma "sacada" de meu inconsciente, um aviso de algo que eu ainda não percebi conscientemente, ou é a realização de um desejo meu, algo que minha "alma" está me avisando que eu tenho? Sinuca de bico...

(imagem: "O Sonho", pintura de Pierre-Cécile Puvis de Chavannes, 1883 - cortesia da wikipedia)