quarta-feira, 16 de julho de 2008

A invenção da solidão


Estou só, abandonado: e daí? Eu já estive só antes, e sobrevivi.

As imagens que vejo em meu espelho - e alguma biologia básica - me dizem que minha solidão não é à toa: eu não sou, e nunca fui, o príncipe esperado pelas donzelas, e quem me vê, homem ou mulher, não deve mesmo me dar valor.

Na verdade, olhando para trás, muito me surpreende que em algum momento alguém tenha ficado ao meu lado: eu sou aquele que devia ter morrido ainda criança, aquele que a seleção natural devia ter filtrado. Eu sou, mas não devia ser.

Se eu pudesse, escreveria um poema sobre isso. Eu daria meu reino por um poema, agora, mas não tenho reino algum, e não sou poeta. E, no entanto, no mesmo espelho que anuncia o meu destino eu vejo, com todos os meus defeitos, alguma poesia, como os pombos e pardais e o mato que vivem e crescem nos terrenos baldios.

As que se acham feias que me perdoem, mas beleza é fundamental: a beleza é fundamental, e existe em cada coisa, intrínseca às coisas, e resiste mesmo nas mais feias delas, como resiste em mim. Não, eu não sou um poeta, mas vejo que o mundo é, e que sussurra sua poesia em meus ouvidos.

Eu estou só, mas ainda posso cantar, na beira da praia, usando a beleza e a solidão como matéria-prima para meus inventos, tendo o vento pra me escutar: que isso me baste.

(imagem: escultura clássica representando uma das sereias da cultura grega, seres que, segundo a wikipedia, "possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio")

6 comentários:

Rafael disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael disse...

A melancolia das tuas palavras perspicazes representa, também, meus sentimentos com relação ao mundo e a mim mesmo; indubitavelmente, escreves com maior brilhantismo que eu escreveria.

Meus parabéns. Ou pêsames.

Dedalus disse...

Caro rafael, muitíssimo obrigado pelo belo elogio. Entretanto, não creio que eu deva aceitar seus pêsames - o que eu escrevi é um desabafo, real, mas que faz lembrar (um pouquinho, ao menos) Fernando Pessoa:

"Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração."

Um abraço!

Rodrigo disse...

É, a gente sempre sobrevive. "na manhã seguinte acaba tudo bem".

Anônimo disse...

Eu tenho boa aparência e estou só. Acho que não há uma relação direta com a "carcaça" que carregamos,fio. Mas já ouvi falar, que só se sabe estar junto,quem consegue estar só. Nesse caso, tenha esperanças...E, fio, alguém com sua sensibilidade, não deveria nunca ter morrido quando crianaça. Sorte!

Anônimo disse...

Não queria que fosse anônima, veja quem sou em www.viveirodeideias.blogspot.com