sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Persépolis



Ontem à noite, zapeando por entre dezenas de canais cheios de lixo, encontrei, praticamente escondido, "Persépolis". Nesses tempos em que propagandas disfarçadas de conversas e críticas sobre o megalomaníaco "Avatar" de James Cameron inundam a mídia, o contraste não poderia ser maior. Enquanto "Avatar" (que eu não vi) é mais um produto comercial escancarado do que um filme propriamente dito, com bonequinhos no McDonalds, "Persépolis" é uma história em quadrinhos que foi filmada depois do livro publicado ter sido um relativo sucesso (o livro com os quadrinhos foi "eleito" o segundo melhor livro da década).

"Avatar" parece ser um apanhado de clichês, misturando capas de discos do Yes com os Smurfs crescidos, com "Brincando nos Campos do Senhor" (filme em que a atriz Daryl Hannah aparece nua), juntando tudo isso com ficção científica para parecer menos infantil. Já "Persépólis" é uma estória biográfica, aparentemente real e simples.

"Avatar" explora as tecnologias de imagem dos videogames, lembrando "Final Fantasy", enquanto "Persépolis" é quase todo em preto e branco, desenhado em nanquim. "Avatar" é um projeto capitalista com um diretor masculino, e um protagonista homem, ao passo que "Persépolis" é um projeto pessoal, nitidamente feminino do começo ao fim.

"Avatar", com seus 161 minutos, deve abocanhar algum Oscar, enquanto "Persépolis", com cerca de 90 minutos, ganhou prêmio em Cannes (e em São Paulo!).

Acho que eu me apaixonaria facilmente pela autora de "Persépolis", Marjani Satrapi: nenhuma das mulheres que eu conheci seria capaz de contar sua própria estória com tanta graça... No Brasil, não creio termos ninguém nem de longe parecido com ela. Quadrinhos, aqui, são um território masculino.

Para finalizar, lembro que no rádio do carro, ontem, ouvi um comentário sobre a imensa quantidade de salas de cinema de São Paulo - só ontem havia 47 opções de filmes à disposição. 47! A maioria, no entanto, é como "Avatar" ou os canais da minha TV: comércio, comércio, comércio e propaganda cultural estadunidense e capitalista. Muito para se ver, pouco para aprender.

(imagem: algo que vale a pena achar nas livrarias)

10 comentários:

Charles Morphy disse...

Caro Dedalus,
Gosto muito de HQs mas, nos últimos anos, só tem aparecido lixo nas bancas e livrarias - descontando as reedições encadernadas. Li o "Persépolis" em uma única tarde. Há anos não travava contato com uma história em quadrinhos tão tocante, verdadeira, bem escrita e fantasticamente desennhada. Juntamente com a nova produção cinematográfica do Irã (assistiu "Procurando Elly", em cartaz no CineSesc?), essa HQ mostra um lado do islamismo pouco acessado pelos ocidentais. Vale a pena!
Abraço

Dodo disse...

Dedalus!!!
A produção de "Avatar" é fruto de uma industria de cinema, e como todo ramo produtivo, necessita almejar o respectivo lucro. E nada mais sensato que isto seja feito em escala comercial. Veja o lato técnico, cientifico, da geração de milhares de empregos diretos e indiretos desta película.
Abraços.

Dedalus disse...

Caro Charles,

Obrigado pelo comentário. Há uns dez anos (ou mais) não vou ao Cinesesc ou a qualquer cinema na região da Paulista: ficou longe demais para mim, e o pouco tempo livre que eu tenho hoje prefiro gastar na minha casa. E de qualquer forma, lá não é o meu lugar: na época em que eu frequentava a Paulista, acabei sozinho, e na última vez em que estive por lá, tentando obter informações da Mostra Internacional, fui tão menosprezado pela mocinha que deveria me atender, que desisti de perguntar qualquer coisa... Enfim, meu mundo é a periferia, não os salões chiques do Cinesesc, ou do Espaço Unibanco - temo que se eu aparecer por lá talvez acabe sendo expulso.

Caro Dodo,

Dar emprego às pessoas é uma coisa boa? Os traficantes dão emprego a muita gente, mas eu não sei se dá para considerar isso bom. Tá bom, vou falar de coisas legais: o McDonalds dá emprego a muita gente, mas a comida que ele vende talvez não seja muito saudável (você viu o filme "Super Size Me"?). Ou seja, há indústrias e indústrias. Não estou criticando a indústria em si, mas o produto dessa indústria: um produto cultural precisa ser simplório para vender?

Um abraço!

Charles Morphy disse...

Caro Dedalus,
O CineSesc pode ser qualquer coisa, menos um salão chique! A meia-entrada, em alguns horários, equivale ao preço de um bandejão na universidade (R$2,00). Muito provavelmente, você foi menosprezado pela atendente ao pedir informações porque ela não deveria nem saber sobre o que você estava falando... De qualquer forma, esse novo cinema iraniano, a meu ver, se afasta da imagem que temos do Irão.
Abraço

Dedalus disse...

Caro Charles,

Não é o valor da entrada que torna o Cinesesc (e similares) um salão chique: é o acesso ao local (ir à Paulista não é tão simples assim para quem mora na periferia, e embora haja um Sesc em Santo André, por exemplo, você já viu filmes iranianos sendo apresentados lá?) e, principalmente, o público frequentador...

Quanto ao Irã, não é um dos países do eixo do mal?

Um abraço!

Charles Morphy disse...

Dedalus,
O Irã é mesmo um dos países do eixo do mal. Assim como os EUA, o Brasil, a França, a Coréia do Norte, o Iraque, a Venezuela, a Costa Rica, Portugal etc... ;)
Bem, acho que os ambientes do Sesc são convidativos para qualquer público. O CineSesc não é exatamente na Paulista (três quarteirões descendo a Augusta), é acessível via metrô e tem preços convidativos. O público freqüentador, em todas as vezes em que fui lá, é composto em sua grande maioria por pessoal da terceira idade. Acho que você deveria dar uma chance (não por conta da terceira idade, claro)!
Quanto ao Sesc Santo André, por vezes há exibições de filmes interessantes. O Sesc São Caetano, a partir de semana que vem, realiza um festival do chileno Alejandro Jodorowsky, que tem filmes radicalmente não-Hollywoodianos. As exibições vão acontecer por 4 semanas, em um cinema em Diadema.
Há vida inteligente fora da Av. Paulista!
Abraço

Anônimo disse...

Esse povo é muito chique!!! HQ iraniano, cinema chileno...

Duvido que vcs prestigiem a "Encenação da Fundação da Vila de São Vicente" com Rogéria, Nuno Leal Maia, Henry Castelli e Juliana Knust. Aliás, a mina que faz a India Bartira foi escolhida em concurso: detalhe, ela trabalha de frentista no posto de gasolina aqui perto de casa, e tem umas coxas cinematográficas.

Para mim, caipira são-carlense, cinema é o que vai abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=QlgWWcDyQG4

Na verdade, prestem atenção na trilha sonora e nas tomadas das câmeras, que são muito boas. Também há uma questão (filosófica?) de causalidade.

Abs, KNX.

Dedalus disse...

Caro Charles,

São Caetano? Você já ouviu falar no conceito (matemático) de homeomorfismo? São Caetano se considera homeomorfo à Paulista. A última vez que estive em São Caetano (há uns poucos meses) foi para ver uma apresentação de grupos de dança, em que o grosso do que foi apresentado era balé clássico e suas variantes. O público era très chic (ou, em outros termos, extremamente burguês) - eu até fiquei com vontade de comentar no meu blog.

Quanto ao Cinesesc - e aos cinemas do circuito alternativo, não-hollywoodiano, em geral - não sei se tenho mais élan para frequentá-lo (e não é uma coisa de idade). Me desculpe usar a seguinte citação, não é um desrespeito, mas é que já estou numa fase da vida em que muitas vezes olho para as coisas e me lembro do Eclesiastes: "Vaidade de vaidades - diz o pregador - vaidade de vaidades! É tudo vaidade." De qualquer forma, obrigado pelas dicas e comentários. Só espero que a minha rabujice não lhe afaste...

Caro KNX,

Você pode não acreditar, mas hoje pela manhã, no banho, ANTES de ler sua postagem, eu estava pensando em Mazzaropi: para mim, é um modelo do cinema que podia ser feito no Brasil e não é mais. Cinema, hoje, no Brasil é algo totalmente burguês, classe média, vazio, com apelo popular, quando existe, das novelas e minisséries da Globo, ou abusando da visão de turista ou antropólogo. Mazzaropi não era isso: era circense, mambembe, e bem brasileiro. Não vejo ninguém como ele tendo espaço no capitalismo cinematográfico de hoje. Aliás, você já viu "Tapete Vermelho"? Recomendo (http://www.youtube.com/watch?v=ihrheFAaoUw).

Quanto à "Encenação da Fundação da Vila de São Vicente" não tem muito turista farofeiro na audiência, buscando apenas ver os atores famosos?

Um abraço!

Charles Morphy disse...

Caro Dedalus,
Nessa eu te peguei. O evento é patrocinado pelo Sesc São Caetano mas vai acontecer em Diadema! Beeeeem longe (tanto geograficamente quanto ideologicamente) da Av. Paulista, não?
Bem, acho que dicotomias válidas até meados do século passado perderam o valor nos últimos anos. O que é cinema burguês? Isso não existe! Vocês acham mesmo que os filmes do Mazzaropi eram feitos fora de uma lógica de mercado? Não eram. Eles, juntamente com a Atlântida, representam os momentos finais da única fase em que a sétima arte teve produção indústrial no Brasil. Esses filmes tinham (e muito!) apelo popular - o mesmo público que migrou para a televisão a partir da década de 50.
O problema do cinema brasileiro atual é muito mais falta de criatividade e de talento do que de qualquer influência burguesa...
Abraço!

Dedalus disse...

Caro Charles,

Sobre seu último comentário, eu fiquei intrigado o que fez o pessoal do Sesc São Caetano fazer algo em Diadema - para buscar um público diferente, para se aproximar mais de São Paulo? Curioso, mesmo.

Quanto ao Mazzaropi e a lógica de mercado, bem, a lógica de mercado é comandada pelos capitalistas que oferecem, na prática, o que eles, capitalistas, acham que o público deve querer.

Até a décade 60 (e talvez um pouco até os anos 70) o pessoal da elite, capitalista, tinha também uma noção de responsabilidade social. Achava-se que o público devia ser educado, ou seja, que produtos culturais também podiam ajudar na civilização das massas. Hoje, essa noção de responsabilidade social foi para as cucuias. O que interessa é a segmentação e, com isso, a maximimação do lucro. Os produtos culturais são pensados apenas em função do público que se quer atingir (se mais ou menos amplo, e etcetera e tal; "Xuxa e a feiurinha" é para meninas, "Se eu fosse você" é para as mulheres e casais, e assim por diante), sem nenhuma preocupação com a qualidade ou autenticidade cultural do produto.

Os cineastas brasileiros, da classe média para cima todos eles,
são limitados em seu repertório hoje muito por isso: pensam todos iguais, globalizados (em todos os sentidos que você puder achar mnessa palavra) que são. Mazzaropi era um capitalista, mas não era como os capitalistas de hoje (a palavra para ele, hoje, seria "um anacronismo").

E o que eu acho que vale para o cinema brasileiro vale também, para mim, para a ciência brasileira: na ciência do Brasil de hoje há um pensamento único, globalizado, que limita muito o que se faz.

Um abraço!