domingo, 31 de agosto de 2008

Como e por que ler


Nas duas últimas semanas estive bem ocupado. Como exemplo de minhas atividades posso citar uma ida à Bienal do Livro de São Paulo, em que andei por um bom punhado de horas, e a participação em um evento com a presença do Excelentíssimo Presidente da República, Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, em que fiquei em pé por um bom punhado de horas.

A ida à Bienal foi para mim uma experiência ao mesmo tempo agradável e frustrante. Agradável pela possibilidade de folhear e conhecer um mundo sem fim de livros, e frustante pela constatação - óbvia - de que a maior parte da produção de livros, no Brasil, embora destinada a uma minoria pelo elevado preço de venda, é de títulos de qualidade no mínimo duvidosa. Em poucas palavras: no Brasil se lê pouco, caro e mal.

Em minha busca específica, quase não achei livros de ciências e/ou de ficção científica. As editoras de livros técnicos e universitários têm em seus catálogos principalmente livros destinados a administradores, muito, muito pouco das ciências básicas - física, química, matemática - e só um pouquinho a mais de biologia, apenas por conta dos futuros médicos e dentistas, mas a preços proibitivos, enquanto a área de humanidades tem uma abundância de ... inutilidades. Já as editoras de literatura concentram seus esforços em best-sellers e livros de auto-ajuda ou modismos ou livros de figuras, para centro de mesa, do tipo "Almanaque daquilo", "O livro de ouro de tal coisa", etcetera e tal. A ficção científica, que eu admiro tanto, não existe no Brasil, como literatura e mercado, pelo simples fato de no Brasil ninguém ligar para ciência.

Assim, vi muito e comprei pouco, e não apenas por conta dos preços. Melhor gastar meu dinheirinho na Amazon (olha uma possibilidade d'eu faturar com propaganda...).

Quanto ao presidente, foi uma grata surpresa. Nunca o tinha visto discursar e, bem, o homem é um showman, que sabe o seu ofício. Antes dele, falaram vários dignatários, inclusive um reitor universitário (responsável pela tradução de um dos livros que comprei na Bienal) - que leu um discurso longo e se atrapalhou com o texto diversas vezes, chegando a criar o termo "células-tranco" - e, de longe, o melhor discurso, informal, focado, bem humorado e tocando nos pontos importantes para a audiência, foi o do presidente. Ao meu lado, um operário - com capacete, macacão e suor - resumiu direitinho o que vimos: "o Lula é foda!".

Dessas duas experiências fico com uma certeza: entre intelectuais e 'burgueses' (eita termo mais feio - fazer o quê? não consigo pensar em outro), que lêem - mal - para talvez ter um pouquinho de idéias, e a espontaneidade do povo, fico com a última.

(imagem: Coroação da virgem, quadro do pintor espanhol Diego Velázquez - século XVII - apresentando Maria, a mãe de Cristo, que segundo o grande escritor Augusto Cury - "seus livros já venderam mais de 5 milhões de exemplares no Brasil" - foi a maior educadora da história)

3 comentários:

Beatriz Vieira disse...

Eu sou da opinião de quem nem tudo que reluz é ouro..
Isolando o fato que vc vivencio, acredito que oratória pode não estar entre as habilidades cultivadas por bons leitores... Sim, eles deveriam ler corretamente.. mas o nervosismo, domínio próprio , etc. Ah, como uma terapia faz bem...
abraços

Dedalus disse...

Cara Beatriz,

Certamente nem tudo que reluz é ouro. Mas eu vivo com um pé no mundo acadêmico, entre intelectuais, e outro pé no mundo real, do povão, da periferia (eu moro na periferia de uma grande cidade e, de longe, sou a pessoa com mais educação formal em todas as gerações da minha família), e sei que o Brasil é um país de gente pobre, em sua maioria. Assim, quem representa melhor esse país é alguém de origem humilde como essa gente, não algum intelectual que se acha obviamente brilhante e superior por ter um diploma. O reitor que eu vi falando é uma pessoa competentíssima em sua área de atuação, um bom cientista, mas aparentemente ficou nervoso na presença do presidente e do ministro da educação, enquanto o presidente, oras, foi ele mesmo, naturalíssimo e, o melhor de tudo, brasileiríssimo em sua naturalidade: acho que faltou isso ao reitor. De qualquer modo, no caso específico, não sei dizer se a diferença é uma questão de terapia ou domínio próprio, apenas: eu sei somente que, às vezes, o que reluz é ouro mesmo.

Um abraço!

Malena disse...

Eu já o vi discursando tb e é muito bacana.
Aliás, essa falácia d´ele ser analfabeto sinceramente me enoja. Para ser torneiro mecânico, formado que ele era, teria que ter no mínimo o ginásio completo. E, naquela época, não tinha aprovação automática.