terça-feira, 10 de março de 2009

Admirável mundo novo (2)


Como físico, tenho acompanhado uma longa discussão na Sociedade Brasileira de Física sobre a qualidade do pessoal formado em física, que aparenta ser baixa. Toda essa discussão, na verdade, começou por conta da divulgação de algumas "barbeiragens" que teriam sido cometidas por um candidato - aprovado - num concurso para professor de uma universidade federal. Outra discussão que vi por aí diz respeito à má qualidade dos textos que aparecem num computador distribuído em Portugal, o Magalhães. Junto os dois assuntos nessa postagem por achar que são exemplos de um fenômeno mais amplo.

Eu, como escritor de um blog que tem a ciência como um de seus temas, também costumo ler blogs de vez em quando. Não sou um leitor exaustivo, e mesmo assim encontro com frequência "pérolas", especialmente no que diz respeito ao uso, digamos, inadequado do português. Por exemplo, no blog de um doutorando em biologia encontrei um "eclipce"; no de uma doutoranda em farmácia uma "bússula"; e no de uma doutoranda em educação uma "obcessão".







O que tais equívocos demonstram é que as pessoas que os cometeram, com alto nível de educação formal, não sabem escrever bem na língua de seu país. E não sabem escrever, simplesmente, por não terem lido o bastante: escrever se aprende lendo, assim como falar se aprende ouvindo (acho que as crianças aprendem assim).

O que eu concluo é isso: nossos doutores se formam doutores sem ler. Ou lendo apenas o suficiente para dominar sua especialidade - e, aparentemente, nada mais. Qual é a saída desse labirinto? Não sei. Nem sei se deve haver saída. Só sei que comigo foi diferente: a minha banca de doutorado me fuzilou - ficou comigo por mais de duas horas - questionando até o meu uso de ponto-e-vírgula. Eu, entretanto, sempre li muito, e sempre tomo um cuidado danado para não errar no português (e mesmo assim erro muito mais do que eu gostaria). Na minha educação leitura foi algo que nunca faltou. Mas, hoje, ah! Já vi palestra de pesquisador 1A do CNPq - físico - dizendo que ler é uma coisa do passado...

Talvez não haja mesmo o que fazer, a não ser, talvez, seguir o conselho presente em um poema de Manuel Bandeira: "dançar um tango argentino". Ao menos é mais divertido do que se preocupar com o que não dá para consertar.

(imagens: screenshots, respectivamente, da principal fonte de informações de hoje e dos erros comentados no texto - clique nas figuras para vê-las em tamanho maior)

4 comentários:

Ana Paula disse...

Dedalus, você foi bastante indelicado comigo, mesmo porque eu já vi alguns delizes silenciosos e outros barulhentos em seu blog quanto ao uso da nossa língua, para os quais não dei muita importância, pois minha atenção estava nas suas idéias. O que posso dizer? Incluo aqui um poema de um livro que comprei hoje porque não resisti ("doutoranda em educação" não tem o hábito de ler), do Mia Couto (Idades, cidades, divindades).
"Errar
Na escolinha, a menina, propícia a equívocos, disse-Masculino de noiva é navio. Repreenderam, riscaram, descontaram. Mas ela estava certa. Noivados são mares de barcos pares."
É uma pena que sua obsessão em estar certo torne-o perverso.
Ana Paula
www.pastelsantacalra.blogspot.com

Ana Paula disse...

Tá no blog da jumenta que o faz dançar tango argentino:
A primeira vez que li o poema do Mário Quintana "da vez primeira que me assassinaram", era jovem e ainda não havia experimentado as vilezas dos homens. Na época, não fazia sentido pra mim o que o poeta dizia. Se eu ainda desconhecesse o sentido do poema do Quintana, hoje, ao visitar o blog do Dedalus, algumas vezes citado aqui e incitador de idéias das algumas postagens do "pastel", não teria dúvida sobre o que dizia o poema. Eu estou lá, citada como "doutoranda em educação" que escreveu "obcessão" no lugar de "obsessão" no post "Física Quântica para portugês ver". O post em que apareço, com direito a imagem do blog e tudo, é um alerta para o não-hábito de leitura. E eu que passei a tarde na Fnac, namorando os livros, sentada no chão. Comprei dois, um para oferecer de presente e outro para mim, do Mia Couto, que aparece na contracapa dono de um olhar profundo. Talvez se ele (o Mia) tivesse lido o post nem tivesse reparado no meu tropeço, ou se o tivesse o acharia insignificante diante das idéias circunscritas. Não estou dizendo que ele (o Mia) concordaria com as idéias do post, mas imagino que talvez percebesse a intenção de comunicabilidade no texto, e para ele, isso fosse suficiente, como o é para mim. Tento colocar-me no lugar do Dedalus buscando imaginar o percurso das suas idéias ao escrever o post e suas escolhas discursivas. Fomos três jumentos quase doutores citados no blog como cometedores de erros ortográficos imperdoáveis. Eu não sei se ele os conhece, mas conhece a mim, como quem trocou algumas mensagens até então civilizadas e gentis. O desinteresse dos alunos pelos livros é algo que me entristece, mas com a escola e com os professores que aí estão eu consigo compreender o fenômeno. Sei que o conhecimento (conquistado através da leitura e do estudo) pode ser convertido em poder, aparecendo no discurso no uso excessivo de termos técnicos e uma cerimoniosa erudição (e os outros que corram atrás para entender!). Nesse caso, mostrar que você domina um conhecimento no qual o outro é um ignorante é uma forma de intimidação, de fazê-lo calar. Foi como me senti: uma jumenta, que nem sabe escrever, intimidada por quem o sabe. Ser uma pessoa conhecida do autor do blog abria a possibilidade da interlocução, mas ele preferiu outro caminho. Guardadas as devidas proporções lembrou-me uma ação terrorista, em que não há diálogo, e o outro é intimidado pelo poder. Deixo de agir (de dizer, no meu caso) por medo ás retaliações (aos comentários). Se eu tivesse usado o corretor do word não teria sofrido este constrangimento. Vou corrigir o erro no referido post, e a partir de agora, passarei a usar regularmente o corretor de texto.E esquecerei essa história. Não vou sujeitar-me a censura de quem quer que seja, de intimidação. Não tenho medo de assumir minha ignorância e assumo meu erro. Foi triste "logo eu" servir de ilustração para o não-hábito de leitura. Eu que ganhei concurso nacional de poesia com 9 anos de idade, falando do sapo Jão-Saltador! Mas não foi difícil ler o contexto: já fui assassinada de forma mais valente e audaz! Alguns nasceram para saltar da prancha, outros, para espetarem o bumbum do colega....

Dedalus disse...

Cara Ana Paula,

Eu não tinha escrito nem seu nome, nem o nome do seu blog, nem aparece na imagem algo que possa identificá-lo diretamente (o mesmo vale para os outros exemplos citados). Apenas descrevi o que vi e tirei uma conclusão que vai muito além de você ou dos erros no seu blog, e que se insere numa discussão bastante ampla sobre como as pessoas trabalham com a cultura. Não lhe xinguei - nem a ninguém - de coisa alguma: apenas mostrei algo bastante comum nos dias de hoje, que é a presença de erros ortográficos em palavras mais ou menos comuns. Minha conclusão, que pode estar errada, é
que esses erros de escrita (que em nenhum lugar eu disse ou dei a entender que são imperdoáveis) aparecem por pouca familiaridade com a língua escrita. Se há outra explicação (deve haver), espero que apareça. No mais, eu não quis lhe ofender: se você se ofendeu, só posso pedir desculpas. E até onde eu entendo, nunca fui incivilizado ou pouco gentil com você. Se você acha isso, peço desculpas novamente: acho que não há muito mais que eu possa fazer. Se há, por favor, me fale. Sinceramente, eu não queria causar esse mal-estar, que também me atinge. Quanto ao discurso do poder, só posso dizer que noto que isso lhe incomoda bastante, mesmo - eu só posso argumentar que fiz o que acho que um professor deve fazer, que é mostrar exemplos de erros desse e daquele tipo, que podem ser evitados, SEM IDENTIFICAR quem os cometeu: não vejo isso como uma forma de me mostrar melhor que ninguém, mas apenas uma forma de indicar caminhos e descaminhos que eu conheço. Mais uma vez, só posso lamentar o efeito que provoquei em você.

Um abraço.

Anônimo disse...

Dedalus,

Nem sempre as palavras são o mais importante: às vezes são as ideias (sem acento, de acordo com a nova ortografia). Por exemplo:

"Assim funciona a ciência: observação da natureza, criação de hipóteses, experimentação e, se tudo der certo, formulação de regras gerais."

Isso aí, que do ponto de vista gramatical é perfeito, é uma baita balela chamada INDUTIVISMO. Posso lhe PROVAR que a visão acima não tem o menor fundamento do ponto de vista lógico, primeiro porque induções não são válidas e, segundo, porque as observações são previamente informadas por teorias tomadas tacitamente.

Ah... só faltou você falar que os erros primários de física eram em concurso público, que por sinal rendem no mínimo R$ 5.200,00 líquidos em início de carreira. Erros ortográficos em blogs não são nada. Seu argumento peca por IGNORATIO ELENCHI.

Saudações, KNX