sábado, 21 de julho de 2007

Crime e castigo

É, quando mais jovem eu me apaixonei muitas vezes, muitas mesmo. Nunca deu certo. Mas eu acho que aprendi algumas coisas. Aprendi, por exemplo, que se pode ficar doente de amor, que isso não é coisa de ficção, apenas.

Uma vez, ainda estudante universitário em São Paulo, perdi as esperanças, por conta de uma paixão que nunca seria correspondida. Do nada, adoeci. Uma semana, quinze dias, talvez, de cama, com febre, muita febre, dores pelo corpo todo, sem conseguir respirar, perdendo provas finais de quatro ou mais matérias...

Eu sumi da universidade e nenhum dos meus amigos (que eram poucos) ligou ou procurou saber o que havia acontecido comigo: outra lição. Mas alguém bateu na minha porta, e eu não pude atender. Minha mãe - isso mesmo, eu morava com meus pais - me trouxe o que um vendedor do Círculo do Livro (eu era um cliente fiel) havia deixado para mim: "O vermelho e o negro", de Stendhal, e "Crime e castigo", de Dostoiévski.

Sem conseguir sair da cama, comecei pelo russo. E, não sei se em parte por causa da minha febre ou de meu estado mental, aquele foi o livro mais impressionante que li. De repente, assim, sem mais nem menos, sarei, fui fazer as provas de recuperação e não fui reprovado em nenhuma disciplina. Terminado o curso, que era de ciências exatas, fui fazer mestrado, doutorado - e letras: pois há coisas para as quais só a literatura tem remédio.

(imagem: A ressurreição de Lázaro, de Vincent Van Gogh)

2 comentários:

Malena disse...

Eu fui do Círculo do Livro, aliás, mamãe foi. Pena que acabou.

Crime e Castigo não é dos meus favoritos da literatura russa, mas para amores assim malignos, recomendaria Neurda: assim a ferida ia doer até queimar, e cauterizada assim, jamais abriria novemente.

Abraços e mto obrigada pela sua visita e comentários! :)

Rafael disse...

Poxa!
Magnífico, Dedalus. Magnífico.

Para mim, a experiência de ler Dostoiévski, e Tolstói, foi bastante marcante também -- mas, ainda bem, à época, não estava doente. =)

Abraços.
Rafa Spengler
(http://www.rafaelspengler.com.br/blog/)