segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Uma breve história do tempo

Num livro de biologia, encontrei uma frase que dizia que a água é um poderoso solvente, e que "é difícil imaginar a vida tendo alguma outra base que não a água".

Curioso... Para mim, o tempo é a base de toda a vida, e é certamente um solvente mais poderoso que a água: dissolve tudo e todos - até mesmo as pirâmides do Egito, sob a ação do tempo, se juntarão às areias que as circundam de maneira que nunca mais poderão ser encontradas. E eu, ou você que lê essas linhas, e todos que vivem hoje, em breve não seremos nada mais que gotas de volta ao oceano de pó de onde saímos, dissolvidos pela simples passagem do tempo.

O tempo é mais que um rio a fluir continuamente: é um oceano.

(imagem: uma praia qualquer, na Wikipedia)

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

As nuvens


Eu queria construir, com palavras, algo que fosse tão leve e colorido quanto uma borboleta, tão sólido quanto um raio de sol. Mas assim que eu começo a unir as minhas palavras, as frases vão caindo como as pedras de uma chuva de granizo, frias e sem vida.

Acho que preciso voltar a ler as nuvens e, talvez, escrever usando penas.

(imagem: cirros, na Wikipedia)

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Os trabalhadores do mar

O mar: ouvi ontem o apresentador de um documentário do "The History Channel" dizer que mais de 90% do leito dos oceanos não foi ainda mapeado. Não sei de onde ele tirou esse número, mas parece razoável. Sendo verdade tal estimativa, é possível que a humanidade conheça melhor a superfície de Marte do que o fundo dos oceanos da Terra.

Conhecer o fundo das coisas é difícil. Acho que é por isso mesmo que vivemos pela superfície do mundo, satisfeitos com a imagem que ela nos passa. Mas eu acho - eu creio que sei - que no fundo é que se esconde a verdade.

Que verdade? Bem, para dar um pequeno exemplo, também ontem, no "Canal Brasil" vi um trecho curto de um documentário antigo, da TV Manchete ("Documento Verdade"), que apresentava o 'renascimento' do nazismo no Brasil. O programa em si era exagerado, mas documentários sobre o nazismo, que é comumente mostrado (com razão) como a encarnação do mal, sempre levantam a questão do fascínio das pessoas pelo mal.

Daí, aprendi ontem ainda, de passagem em outro canal, o "Discovery Channel", que na década de 60 um psicólogo, Stanley Milgram, fez uma série de experimentos muito reveladores sobre o poder da autoridade nas pessoas. Nesses experimentos professores voluntários eram convidados a avaliar alguns alunos para testar se punições físicas, no caso choques elétricos dados por uma máquina, podiam influenciar na aprendizagem. É claro que os choques eram falsos, assim como os alunos e seus sofrimentos, mas os professores voluntários não sabiam disso. O resultado mais interessante não foi que os professores decidiram participar e impor castigos aos alunos, mas que, por pura obediência aos 'donos' do laboratório, eles aplicavam o que eles imaginavam ser choques potencialmente letais aos seus alunos...

Milgram concluiu que

"Pessoas comuns, apenas fazendo seu trabalho, e sem qualquer particular traço de hostilidade, podem se tornar agentes em um terrível processo destrutivo. Além disso, mesmo quando os efeitos destrutivos de seu trabalho se tornam patentemente claros, e eles são então solicitados a continuar com ações incompatíveis com padrões fundamentais de moralidade, relativamente poucas pessoas têm os recursos necessários para resistir à autoridade."

Isso me fez lembrar de dois filmes antigos, da década de 90, "Uma cidade sem passado" e "O aprendiz" (é curioso que poucos façam a ligação entre o conteúdo desse último filme e um reality show popular de mesmo nome - acho que existe muita coisa em comum).

Mas, para fechar com um pouco mais de brilho o domingo, eis o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, na "Folha de São Paulo":



"Se você acua um gato num quarto escuro, dizem, não tem uma forma de expressão. Em Origens do Totalitarismo, quando você lê os relatos que a Hannah Arendt faz do fascismo, é claramente de um povo que se sentia acuado, economicamente, social e politicamente. O totalitarismo não permite que o indivíduo se exprima. Gera a violência. Isso é muito perigoso. Fico assustado quando vejo esse tipo de reação. A reação correta é construir um ambiente de diversidade. Não é um demônio adversário, em cima do qual você joga toda responsabilidade."

Vivemos num ambiente de diversidade? Eis um texto que li recentemente, acho que no "Estado de São Paulo", e que imagino refletir com clareza o pensamento diversificado do mundo atual:



"Hoje, nem seria preciso dizer, a história está clara para quem quiser ver. Na prova sobre capítulo 18 de a História da Riqueza do Homem deveria tirar nota dez o aluno que escrevesse: a história, tão cara para Huberman, o traiu completamente; o colapso foi do socialismo e o inevitável é o capitalismo."

Isso me lembra uma série de TV iniciada na década de 60, "Jornada nas Estrelas", onde os inimigos da Terra, os klingons, nada mais eram que uma caricatura dos comunistas soviéticos. Na versão mais nova da série, a "Nova Geração", os grandes monstros passaram a ser os borgs, alienígenas dominadores que apenas informam a quem irão 'assimilar' (isto é, destruir): "resistance is futile"... Quem representa, no mundo real de hoje, o papel dos borgs?


Enfim, eu divago. Sobre o que eu queria falar mesmo? Ah! Lembrei: o mal existe, não é um conceito abstrato, vago e distante. E mesmo estando no fundo, não é difícil trazê-lo à superfície. Basta só um pouco de vento soprando ou, pior, quem queira remexer o leito do oceano.


(imagem: O sonho da razão produz monstros, gravura do pintor espanhol Goya)

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Triste fim de Policarpo Quaresma

Há cerca de um ano fui ao Museu do Ipiranga, com uns amigos vindos de Mato Grosso, que visitavam São Paulo pela primeira vez. A primeira vez em que estive lá eu era um garoto de 6 ou 7 anos, e acompanhava a turma de minha escola, da periferia da Grande São Paulo.

É, o Brasil é um país grande, como São Paulo é grande, e o Mato Grosso maior ainda. Mas não sei se há muita grandeza por aqui.

Exemplos não faltam, sem se pensar na classe política, que não devia merecer atenção em lugar algum do mundo: pessoas (ricas) que se divertem jogando ovos podres em passantes, rapazes (ricos) que se divertem espancando prostitutas e/ou domésticas, pessoas que põem fogo em mendigos, um patrão que rouba a única chance de um empregado enriquecer, o contraste entre a exaltação 'heróica' dos mortos de um acidente de avião e o esquecimento puro e simples dos mortos em um acidente de trem... É interessante dirigir, em qualquer cidade ou estrada brasileira, obedecendo ao limite de velocidade, e ver quantos carros (que não são de pessoas pobres ou deseducadas) passam em velocidades mais altas.

Mas, é claro que como cereja do bolo vem a conclusão - em uma pesquisa - de que o pior do Brasil é o povo.

Me lembro do personagem Policarpo Quaresma, de Lima Barreto que, major, trabalhando como subsecretário do Arsenal de Guerra, patriota ao extremo, teve um fim triste, pois "fora bom, fora generoso, fora honesto, fora virtuoso - ele, que fora tudo isso, ia para a cova sem o acompanhamento de um parente, de um amigo, de um camarada..." E foi assim que o bom e velho Lima Barreto criou um personagem a cada dia mais e mais absurdo: me parece que com o tempo se torna mais inverossímil crer que exista ou possa ter existido, mesmo que no terceiro ou quarto escalão da 'elite' brasileira, um único personagem imbuído de patriotismo, honestidade e virtude.

Na verdade, imagino que a honestidade e virtude aqui, se ainda existirem, devem ser qualidades em extinção, as únicas propriedades de quem não tem mais nada, ou estejam talvez nalgum museu, já que os 'vivos' desse país - que não são tantos assim, mas que têm muito ("em um ranking mundial que inclui 126 nações, o Brasil ainda aparece com a 10ª pior distribuição de renda, atrás de países como Haiti") - não precisam disso.

(imagem: fachada do Museu do Ipiranga, em São Paulo, numa foto minha)

terça-feira, 4 de setembro de 2007

A morte em Veneza

Eu estive em Veneza, há muito tempo... Eu era jovem e muita coisa parecia possível. Fui ao palácio do Doge, andei entre os pombos na praça San Marco, passeei de 'vaporetto' para cima e para baixo, vi igrejas e pinturas, e fugi da overdose de cultura, indo à praia, no Lido.

Veneza é uma cidade charmosa, não há como negar. Mas não é pelas construções e pelas pinturas e palácios e museus. Não. O charme de Veneza é a presença ubíqua do mar, o mar que está em toda parte, o mar que tanto me faz falta agora, tão distante dessa cidade de ar e águas sujas em que hoje me encontro.

Se eu pudesse iria para lá hoje, em férias, só para permitir que o "êxtase do mar e do brilho do sol" despertassem em mim uma sensação que só é causada pela beleza, a sensação de se estar vivo, com o cuidado de não me embriagar demais...

(imagem: Entardecer em Veneza, Claude Monet)

domingo, 2 de setembro de 2007

O mito de Sísifo


Causou algum celeuma esta semana a notícia de que Madre Teresa de Calcutá teria tido crises de fé. Em diferentes cartas ela teria expresso de diferentes formas um mesmo desespero: "Por favor reze especialmente por mim para que não estrague a obra d'Ele e que Nosso Senhor possa se mostrar - pois há uma escuridão tão terrível dentro de mim, como se tudo estivesse morto".

Passei metade do sábado num hospital público, acompanhando uma moça boliviana de 18 anos que, sem quase falar português, e logo depois de se tornar uma mãe solteira, precisou ser internada com uma infecção no útero, que ela teimava em esconder, tal como tinha escondido sua gravidez.

Não, a iniciativa de levar a moça ao hospital não foi minha. Eu apenas servi de motorista. Achei um gesto bonito que alguém se preocupasse com ela, e acompanhei a empreitada. Mas...

Ajudar seres humanos doentes é como enxugar gelo. É um trabalho interminável. Nas quase 6 horas que fiquei no hospital, entraram zilhares de pessoas com os mais diferentes problemas: acidentes, brigas, doenças diversas.

Não creio que a moça boliviana, quando curada, vá se tornar uma pessoa que mais ajude a resolver do que a causar dificuldades. Não vejo na maioria da pessoas a capacidade de viver sem dificuldades. E acho que Madre Teresa de Calcutá, cercada pela pobreza de Calcutá, deve ter sentido isso claramente.

Ajudar as pessoas é pior que enxugar gelo: é como limpar com água as feridas de alguém com hanseníase - não resolve nada. É como o trabalho do titã Sísifo, que é condenado pelos deuses do Olimpo a eternamente rolar para o alto de uma montanha uma rocha que, ao chegar lá, rola para baixo novamente, obrigando-o a recomeçar.

A vida humana é absurda, e o único assunto filosófico sério é o suicídio. E o heroísmo seria, vendo o absurdo, continuar vivendo. Não, não é heroísmo, é simplesmente estupidez, ou falta de opções, ou pior, instinto de sobrevivência - a natureza sempre fala mais alto. E, nós, homens, proliferamos como moscas...

"Et c'est bien là le génie : l'intelligence qui connaît ses frontières."

(imagem: Sísifo, por Ticiano, século XVI)

Utopia


Não sei ao certo quando, mas um dia desses acordei com o nome de três lugares em minha cabeça: Latvéria, Cafiristão e San Marcos. Pouca gente deve ter conhecido ou se lembrar desses lugares, mas eu não os inventei: eles estão lá na Wikipédia. Como o motivo de eu me lembrar do Cafiristão é um pouco interessante, acho que vale umas linhas.

Uma noite, ao chegar em casa do trabalho, li num jornal que na TV, mais tarde, haveria um filme, "O homem que queria ser rei", cuja história se passava lá. Eu tinha que levantar antes das 7 da manhã para entrar no trabalho às 8, e o filme começaria às 2 da manhã. Eu não tinha vídeo e, na época, esse filme não podia ser encontrado em locadoras. Então criei coragem e fiquei acordado até o fim.

No dia seguinte, fui trabalhar com a convicção que meu trabalho não valia a pena. Melhor seria para mim e para o mundo se eu tentasse ser rei em algum lugar distante, mesmo que imaginário, mesmo que sem conseguir.

Previsivelmente, hoje não sou rei. Vivo como mais um serviçal de um templo dominado por uma burocracia de sacerdotes que podiam ser advogados ou empresários, sem amor à religião que praticam. São homens de método, sem espírito. Que método e espírito são esses? Oras, "o espírito científico, fortemente armado com seu método", que "não existe sem a religiosidade cósmica", a qual "consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza".

Acho que é isso: sou um utópico, vivendo por palavras, idéias e lugares que ninguém conhece.

(imagem: ilustração para Utopia, livro de Thomas Morus)

sábado, 1 de setembro de 2007

Eu, robô

Bem, hoje é sábado, que é dia de feira na porta de minha casa. Fui a ela e aproveitei para ir à banca de revista também. Xeretando, me chamou a atenção a capa da revista "Galileu", onde se podia ler "Você, animal - agimos por instinto tanto quanto os outros bichos".

Fiquei curioso, comprei a revista e achei o texto muito bem feito, o que, pela minha experiência, não é comum em uma revista brasileira. Bingo! Fuçando na internet, encontrei um texto que discute o papel da consciência no comportamento humano (há gente fazendo pesquisa sobre isso!), retirado da revista "New Scientist": é o mesmo texto da "Galileu"...

De qualquer forma, a idéia básica do texto é que "talvez a melhor forma de entender o comportamento humano seja ignorar o lado racional", pois "provavelmente não somos os sábios racionais que pensamos ser": "muito do comportamento humano é automático e determinado somente pelo instinto". Muito? Quanto é muito? "Quase tudo que fazemos é automático", ou, nas palavras de um dos pesquisadores entrevistados no artigo, "Estou cada vez mais inclinado a concluir que a consciência é algo sem importância".

Exageros à parte, é fácil ver que na maior parte do tempo somos robôs animais. Robôs controlados por nossos genes, provavelmente, fingindo ou - pior - acreditando que somos muito mais que isso.

Tal visão não me agrada mas, em tudo que me cerca, sou forçado a aceitá-la - ela me invade como um cheiro que a tudo permeia, e que aparentemente quase ninguém mais parece sentir. Pena: desse modo não vejo se abrir a porta para qualquer possibilidade de redenção da humanidade a curto ou médio prazo.

Fico com a impressão de que Sócrates, com seu "conhece a ti mesmo", uma novidade de 2400 anos de idade, não seria condenado hoje. Acho que ele não seria sequer ouvido: ninguém parece querer se conhecer de verdade.

(imagem: A morte de Sócrates, de Jacques-Louis David, século XVIII)

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Os princípios da psicologia

É, eu já viajei um bocadinho por aí, conhecendo lugares, encontrando pessoas. Claro que nessas viagens vez por outra encontrava - ainda encontro - viajantes como eu. Um deles, que muito me surpreendeu, era um americano chamado William James.

William James veio ao Brasil quando ainda tinha 23 anos, é o que me dizem. Passeou pela Amazônia, onde se encantou com uma moça de lá, que ele descreveu como "minha rainha da floresta, minha flor do trópico". E isso era no século XIX! Ao que me parece, é coisa bem típica de gringos essa de se encantar com as mulheres brasileiras, e independe da época...

Mas não foi o 'turista' William James que me encantou, e sim o escritor, ou filósofo, ou psicólogo, 'inventor' do fluxo de consciência. Eis um trecho de seu "Pragmatismo":

"Nego firmemente que a nossa experiência humana seja a mais elevada forma de experiência existente no universo. Creio, isso sim, que a nossa relação com todo o universo é praticamente a mesma que os nossos caninos e felinos de estimação mantêm com a vida humana. Eles habitam nossas salas de estar e bibliotecas. Participam de cenas de cuja significância não fazem a mínima idéia. Eles são apenas tangentes a curvas da história, cujos começo, fim e formas passam inteiramente fora de seu alcance. E assim somos tangentes à vida mais ampla das coisas."

Não me surpreende que poucos o conheçam: como ele ousou comparar-nos a cães e gatos? Eu, que nunca estudei filosofia ou psicologia a sério, não ouso, porém, discordar dele. Prefiro uma frase do irmão dele, Henry James, que como escritor 'psicológico', devia saber do seu ofício: "gatos e macacos, macacos e gatos - toda a vida humana está aí" (a frase aparece em "A madona do futuro"). Mas eu sinceramente acho que nos falta a graça dos gatos...

(imagem: Gato de Cheshire, ilustração de John Tenniel, para "Alice no País das Maravilhas")

Memórias póstumas de Brás Cubas

Depois de uma seqüência de dias quentes e secos, vi hoje a notícia de que nesse mês de agosto choveu apenas 2% da média de chuva medida no mesmo mês em outros anos. E isso me fez lembrar de quando morri. Era setembro ou começo de outubro, o ano era de copa do mundo, e não chovia forte há dois meses. O clima estava seco, tenso, as pessoas cheias de problemas respiratórios, as represas ameçando parar de fornecer água para as torneiras.

Me lembro bem do clima da época, pois foi quando eu e ela - quem era ela não importa - tivemos uma discussão forte, imensa talvez por ser a primeira. Ela saiu intempestivamente do apartamento para a rua, e imediatamente começou a chover, uma tempestade surpreendentemente intensa, como há muito os paulistanos esperavam.

Foi também a nossa última discussão. Não consegui dormir naquela noite. Fiquei na cama semi-acordado, com a nítida impressão de que havia uma equipe de cirurgiões ao meu redor, arrancando cuidadosamente meu coração. Logo soube, porém, que eles haviam falhado: eu morri naquela noite, e meu corpo - sem cicatrizes - é testemunha disso. Nada demais, entretanto: morri outras vezes depois, é claro, e hoje só espero não morrer mais por ter descoberto que para morrer é preciso estar vivo.

Tempora mutantur, seja lá o que isso for, nos et mutamur in illis.

(imagem: Viajantes surpreendidos pela chuva, de Hiroshige, artista japonês do século XIX)

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A escalada do homem

Ao ir buscar o jornal, hoje pela manhã, me surpreendeu a imagem na capa de uma mulher semi-nua, típica de revistas masculinas, e algo não esperado num jornal sério como "A Folha de São Paulo", tão sério que tem apenas apenas uma página de ciência e um caderno inteiro, diário, de 12 páginas, chamado "dinheiro". Ao ler a descrição da foto, entendi que era isso mesmo, a notícia de que uma mulher de Brasília havia feito um ensaio para a Playboy.

Cortesãs existem desde sei lá quando: ontem mesmo, semi-adoecido em casa, vi, à tarde, num canal de filmes que acho que era o TNT ou HBO, um trecho curto de um filme, "Dangerous Beauty", cuja história se passava em algum lugar da Europa renascentista, em que uma mulher mais velha ensinava a outra mais nova as artes do amor profissional, explicando cuidadosamente como fazer uma felação.

E já que isto aqui é um blog, não custa citar que um dos blogs mais famosos do Brasil é o de uma suposta ex-garota de programa, que tem até verbete na Wikipédia.

Enfim, o que isso quer dizer? Imagine que eu seja uma moça, ou uma menina: que tipo de mensagem a sociedade está me passando? A mensagem acho que pode ser encontrada na história recente de uma bandeirinha de futebol que, afastada de sua função por ter supostamente errado, teve como caminho adequado, indicado pela sociedade, não um campo de futebol, mas sim as páginas internas da Playboy...

Vejo nisso tudo apenas manifestações claras da nossa cultura 'superior', que nos afasta dos outros animais e dos instintos ditados pela biologia. Após milhões de anos de evolução, reavaliados hoje mesmo devido à descoberta de fósseis que levam a crer que a separação entre homens e primatas não aconteceu tão recentemente quanto se pensava, nós criamos grandes cérebros e, enfim, concluo eu, chegamos ao ápice da civilização.

Na minha mesa, uma foto de Einstein, na capa de uma biografia recente, sorri para mim.

(imagem: capa da revista "The economist", de dezembro de 2005)

domingo, 19 de agosto de 2007

O macaco nu

Imagine que uma raça de extraterrestres inteligentes, com tecnologia muito mais sofisticada que a nossa atual, de alguma forma nos descubra, e que eles queiram investigar quem nós somos, antes de entrar em contato direto conosco.

Uma das possibilidades seria acompanhar, à distância, nossa transmissões de rádio e TV, que acabam escapando para o espaço. Outra possibilidade, muito mais complicada, seria 'infiltrar' alguém na Terra para investigar nossa cultura. Na verdade um alienígena disfarçado teria problemas para estudar a humanidade. Afinal, o que é melhor usar como fonte de pesquisa para se saber o que é típico da humanidade? Uma enciclopédia? Uma biblioteca? As centenas de canais de uma TV a cabo? A internet? A blogosfera?

Eu faço e acompanho pesquisas científicas, leio jornais, revistas e livros, assisto TV, ouço músicas e vasculho a internet e, somando tudo isso, a imagem que eu tenho dos seres humanos não é bela. Mas eu não saberia o que indicar a alguém que quisesse conhecer a cultura do bicho-homem.

Hoje, li no jornal "Estado de São Paulo" que somos um misto de duas espécies diferentes de símios, bonobos e chimpanzés: "chimpanzés fazem guerra; bonobos fazem sexo". E nós preferimos os dois, sexo e violência: "humanos têm um pouco dos dois - as tendências territoriais e agressivas dos chimpanzés, que muitas vezes são úteis para nossa proteção, e também uma ótima habilidade de resolver conflitos e cooperar com os outros." Fazer sexo é cooperar? Nunca pensei nisso.

Não há mesmo muita diferença entre nós e os macacos. Era isso mesmo que, na década de setenta, dizia a série de filmes "O planeta dos macacos". Somos apenas um pouco mais espertos - ou menos, dependendo de como você observa. Mas eu sonhava que podia ser mais que isso.
No entanto, para o meu desencanto, também eu gosto de ver imagens de fêmeas jovens nuas, também eu gosto de ver belas cenas de destruição, como as de "Zabriskie Point".




As estrelas nunca me pareceram tão distantes.



(imagem: placa enviada junto com a sonda Pioneer 10, objeto humano que mais longe viajou até hoje)

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

O mundo assombrado pelos demônios

Eu tenho uma conta de e-mail gratuita, num grande portal da internet. Passando por lá, para ler minhas mensagens, não pude deixar de notar uma enquete que aparece no canto de um blog anunciado na página principal do portal:

"Qual é a pior frase sobre o Brasil ?
O Brasil não tem nada. O Brasil é isso aí. (FHC)
O Brasil não é um pais sério. (De Gaulle)
Desta terra eu não quero nem o pó. (Carlota Joaquina)
Esse é o lugar mais nojento em que estivemos. E o Brasil? Depois do Brasil. (Lisa e Bart Simpson)"

Não voto em nenhuma delas, mas as achei interessantes como exemplo de frases provocativas, apenas isso.

Quanto as citações de frases, procurando na internet pode-se achar milhares delas. Os textos na nternet, em geral, são isso: bricolagens de frases - e idéias - alheias. Na internet parece que muito pouco se cria, e muito se copia. Por exemplo, recebi ontem uma mensagem dizendo que no final de agosto o planeta Marte estará tão grande quanto a Lua cheia. É, obviamente, um hoax, uma notícia falsa, divulgada por parecer interessante e pelo hábito que as pessoas criaram de usar a internet para divulgar qualquer coisa, sem se preocupar muito com sua autenticidade ou verossimilhança.

Já recebi várias mensagens divulagndo boatos. Outro dia, recebi uma mensagem linda, falando sobre um pintor, Albrecht Dürer, que, sendo pobre, teria se tornado pintor graças ao sacrifício de um amigo. Achei a estória tão bonita, mas tão bonita mesmo, que me pareceu falsa. Fui investigar, usando o Google, e descobri que há pelo menos duas versões da estória - numa é um amigo que sacrifica por ele, noutra é seu irmão - mas em ambas eles vêm da pobreza e apenas Albrecht se torna um pintor. O problema é que, aparentemente, Albrecht Dürer nunca foi pobre: seu pai era um ourives que depois se tornou dono de muitas gráficas, sendo, de acordo com a Wikipedia em inglês, o mais bem-sucedido editor na Alemanha da época.

Minha investigação no Google me levou a perceber que a estória da pobreza de Dürer aparece ligada principalmente a sites de fundo religioso. Aliás, quem me mandou a estória foi uma pessoa religiosa. Faz sentido: para os religiosos é interessante ter estórias 'reais' de fundo edificante, com uma moral bonita. Já ouvi muitas dessas estórias e, como essa de Düreer, elas me parecem, hoje, bonitas demais para serem verdadeiras. Outra coisa interessante sobre os religiosos é que eles são pessoas que 'querem acreditar' - gosto do som do termo em inglês para isso: gullibility. Só que a credulidade dos religiosos é humana: eles acreditam prontamente em estórias que os agradam, que acariciam somente aquilo em que eles querem acreditam, e não em qualquer estória.

A briga dos religiosos com a evolução é essa: a evolução parece lembrá-los de que eles são - nós somos -, antes de tudo, animais, e os religiosos, especialmente os cristãos, não querem ser lembrados disso. Eles preferem acreditar que Deus os criou à sua imagem e semelhança, preferindo, provavelmente, a ilusão ao invés da realidade. Qualquer um ou coisa que lhes contradiga é um servo do demônio ou uma mentira criada pelo demônio.

Mas o mesmo ocorre também com os não-religiosos, pois também eles têm demônios. Todos temos preconceitos, e o que reforça nossos preconceitos e nossos gostos pessoais é facilmente abraçado por cada um de nós. Ilusões, adoramos viver de ilusões, já que a realidade geralmente não é do jeito que gostaríamos que ela fosse. Não é a toa que, em algumas vertentes do budismo, o que mais se parece com o diabo cristão é Maya, que pode ser descrito como a divindade das ilusões.

O que é real? Não sei, mas busco - e oro para que minha busca não seja em vão.



(imagem: Mãos em prece, de Albrecht Dürer)

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Nosso lar

Ontem, na festa de aniversário de um amigo chileno, conversávamos sobre as diferenças entrte o português e o espanhol, e entre as diferenças do português falado em diferentes partes do Brasil. Em Cuiabá, por exemplo, não há peixes: há pêches...

Dizem que a pátria verdadeira de cada homem é a língua que ele fala. Talvez o modo de pensar de cada ser humano esteja ligado mesmo à lingua que ele aprendeu quando criança. Acho que em um livro espírita popular, "Nosso Lar", de Chico Xavier, essa idéia é levada ao extremo: o lar do título é uma cidade (uma "colônia") espiritual para os recém-mortos falantes de português. Fica a pergunta para algum espírita me responder: e os hindus? Terão eles outro tipo de cidade? E os índios? E os chineses?

Não sei quanto tempo o português irá durar. As línguas mudam e o próprio português não é uma língua de primeira geração, pois é filho do latim, e ele já apresenta algumas subdivisões - o português de Portugal, o do Brasil e o português da África. Mas pode-se imaginar facilmente um dia em que o português desaparecerá, ou especular sobre futuros alternativos onde ele sobreviverá como um dialeto de uma cultura minoritária. Um exemplo disso aparece no livro "Orador dos mortos", de Orson Scott Card, onde, após a descoberta por uma sonda de um novo planeta, os colonizadores do novo mundo foram "portugueses pela língua, brasileiros pela cultura, e católicos pelo credo", dando a essa nova Terra o nome de Lusitânia. Para mim é claro que a escolha de língua, cultura e credo nesse romance foram feitas pelo exotismo: para o escritor, que foi um missionário mórmon no Brasil, nada deve ter parecido mais alienígena do que o jeito de ser dos brasileiros.

De qualquer modo, eu não me vejo como amarrado ao português. Minha pátria é o Brasil, mas também não é nenhum lugar - antes de ser brasileiro, falante de português, eu sou humano. E entendo que o conhecimento e a 'verdade' podem ser expressos em qualquer língua. Infelizmente, porém, não tenho - nunca terei - tempo para ser tão poliglota quanto eu gostaria. Assim, concentrei parte da minha vida na aprendizagem da mais universal das línguas: a matemática.

Os sonetos de Shakespeare são lindos, tanto quanto os sonetos de Camões, mas um dia as línguas inglesa e portuguesa - e, principalmente, os homens - poderão ter se perdido, ou mudado tanto, que apenas uns poucos estudiosos os entenderão. No entanto, as leis da natureza continuarão sendo as mesmas que eram na época de Shakespeare e Camões. E em que língua se lê o livro da natureza? A resposta a essa pergunta foi escrita por Galileu, no início do século XVII:

"A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes de se entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto."

A natureza é beleza pura, e descrevê-la, criando poesia eterna, que sobreviverá a línguas e povos, usando a matemática, é o objetivo mais nobre que eu imagino que um artista pode almejar. Mais do que invejar Fernando Pessoa, por ter escrito "navegar é preciso, viver não é preciso", eu invejo Einstein por ter escrito, quase na mesma época,






É pena que tão pouca gente esteja disposta a entender o que se esconde atrás dessa equação, mas é assim que brilham as estrelas, que iluminam o universo, nosso verdadeiro lar...



(imagem: Plêiades, em foto da NASA)

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

A origem das espécies

Estou lendo atualmente alguns livros de biologia. Charles Darwin é outro dos artistas que eu considero geniais, mais geniais que qualquer escritor ou poeta ou músico ou cineasta ou sei lá o quê. Eu invejo Darwin, não tanto por sua genialidade, mas principalmente por ele ter podido viajar num navio por anos a fio, observando o mundo. Passou até pelo Brasil, em 1832, onde se espantou com a natureza - "deleite é um termo fraco para expressar os sentimentos de um naturalista que anda pela primeira vez por uma foresta tropical brasileira" - e com a escravidão: "Graças a Deus, nunca mais voltarei a visitar um país escravista".

A idéia central da biologia moderna, aquela que lhe dá sentido, é a evolução. De acordo com essa idéia, descrita num livrinho simples e interessante, chamado "Evolução, o sentido da biologia", "o raciocínio evolutivo também permite compreendeer comportamentos". Um exemplo dado por esse texto é o das náuseas e vômitos sentidos por mulheres grávidas no primeiro trimestre da gravidez: seria uma defesa desenvolvida pela espécie humana para proteger o embrião de possíveis substâncias tóxicas ingeridas pela mãe.

Eu posso pensar em dúzias de outros comportamentos que 'herdamos' de nossa biologia. O problema é que a maioria das pessoas não pensa sobre isso, e age como se estivesse sendo motivada por razões... Deus sabe o quanto somos animais, e nossa razão é, em geral, usada apenas para satisfazer nossos instintos. Um exemplo: dentre os primatas, os seres humanos são aqueles em que os órgãos sexuais masculinos são os mais desproporcionais em relação ao tamanho do corpo. Em outras palvras, olhando um gorila e um homem, você seria levado a pensar que o pênis do gorila seria maior do que o do homem e, na verdade, é o contrário que acontece.

E daí? O que isso tem a ver com evolução e comportamentos humanos? Bem, como será que os humanos acabaram tendo essa característica? Talvez, por seleção feminina: as fêmeas humanas, no passado, selecionariam os machos que tinham os pênis maiores e essa característica seria passada para os seus filhos, e assim por diante, até chegarmos aos dias atuais. Qual razão elas teriam para fazerem isso? A mesma que faz as fêmeas dos pavões escolherem os machos com caudas mais vistosas: a cauda é um símbolo de saúde, força, talvez até mesmo de status social. Claro que, como a biologia é uma ciência, essa não é a única hipótese para explicar o tamanho dos pênis humanos, mas fico, por ora, com essa.

Hoje, de qualquer modo, qualquer que seja a explicação, as mulheres não escolhem mais os homens pelo tamanho do pênis. Dizem elas que escolhem por amor. Eu, tendo conhecido algumas mulheres, duvido. A escolha ainda é biológica, mesmo que encoberta por séculos de cultura. Mas o amor é cantado e decantado, aparecendo até na Bíblia. No entanto, toda essa supervalorização de um sentimento que pode ser nobre e real em alguns casos me parece apenas uma fuga, uma tentativa de esconder nossa origem animal, uma racionalização a posteriori do que é, na imensa maioria das vezes, fundamentalmente irracional.

Repito o que já disse antes, aqui, de outras formas: nós, humanos, podemos ser divinos, mas em geral somos apenas pó, podemos ser belos, mas em geral somos muito feios, e não gostamos que nos lembrem disso. Eu, que já busquei muito o amor, não procuro mais esse tipo de beleza: quero apenas a beleza pura e natural, que em princípio não depende diretamente de outros humanos para ser encontrada.

(imagem: detalhe do Nascimento de Vênus, de William-Adolphe Bouguereau)