Causou algum celeuma esta semana a notícia de que Madre Teresa de Calcutá teria tido crises de fé. Em diferentes cartas ela teria expresso de diferentes formas um mesmo desespero: "Por favor reze especialmente por mim para que não estrague a obra d'Ele e que Nosso Senhor possa se mostrar - pois há uma escuridão tão terrível dentro de mim, como se tudo estivesse morto".
Passei metade do sábado num hospital público, acompanhando uma moça boliviana de 18 anos que, sem quase falar português, e logo depois de se tornar uma mãe solteira, precisou ser internada com uma infecção no útero, que ela teimava em esconder, tal como tinha escondido sua gravidez.
Não, a iniciativa de levar a moça ao hospital não foi minha. Eu apenas servi de motorista. Achei um gesto bonito que alguém se preocupasse com ela, e acompanhei a empreitada. Mas...
Ajudar seres humanos doentes é como enxugar gelo. É um trabalho interminável. Nas quase 6 horas que fiquei no hospital, entraram zilhares de pessoas com os mais diferentes problemas: acidentes, brigas, doenças diversas.
Não creio que a moça boliviana, quando curada, vá se tornar uma pessoa que mais ajude a resolver do que a causar dificuldades. Não vejo na maioria da pessoas a capacidade de viver sem dificuldades. E acho que Madre Teresa de Calcutá, cercada pela pobreza de Calcutá, deve ter sentido isso claramente.
Ajudar as pessoas é pior que enxugar gelo: é como limpar com água as feridas de alguém com hanseníase - não resolve nada. É como o trabalho do titã Sísifo, que é condenado pelos deuses do Olimpo a eternamente rolar para o alto de uma montanha uma rocha que, ao chegar lá, rola para baixo novamente, obrigando-o a recomeçar.
A vida humana é absurda, e o único assunto filosófico sério é o suicídio. E o heroísmo seria, vendo o absurdo, continuar vivendo. Não, não é heroísmo, é simplesmente estupidez, ou falta de opções, ou pior, instinto de sobrevivência - a natureza sempre fala mais alto. E, nós, homens, proliferamos como moscas...
"Et c'est bien là le génie : l'intelligence qui connaît ses frontières."
(imagem: Sísifo, por Ticiano, século XVI)







